quinta-feira, fevereiro 03, 2005

TESTEMUNHO PESSOAL

Gostaria em primeiro lugar felicitar o Sousa Jamba,por este artigo porque é oportuno ,e também pelo Romance "Patriotas". Li-o em 1992, gostei imenso. Agora sim falo concretamente deste artigo: Foram milhares e milhares de homens e mulheres , jovens e velhos , crianças que logo depois da proclamação da independencia seguiram o Dr. Savimbi. Tal como foram muitos os que ficaram. Foi tudo uma questão de sobrevivencia.Tenho plena certeza , estes milhares e milhares de angolanos não seguiram um "Idolo" que se chama Savimbi. Seguiram um ideal de vida e liberdade. 90% da minha família caminhou: A minha mãe, a velha Emilia Simiti, , o meu avo ,O velho Samakaka,grande Soba no Moxico, no bairro Sagondo, os meus tios , primos e primas que caminharam em direcção à Jamba, e que morreram vítimas de bombardeamentos do Mpla( o unico sobrevivente deste bombardeamento é um irmão meu, que se lembra como as bombas rasgaram em pedaços os corpos dos nossos parentes). EStes meus parentes defendiam um ideal de liberdade, vivida na diferença. Não podemos perder os elementos essenciais da história de Angola: Penso que todos conhecem o que o Acordo de Alvor previa: Independencia, Organização de Assembleia Constituinte, previamente eleita, pleito eleitoral entre os três partidos (Fnla Mpla Unita), o Mpla proclamou unilateralmente a indenpendencia em Luanda, como resposta a Unita e a Fnla proclamaram -na no Huambo. Portanto, este foi o primeiro e o mais grave erro histórico cometido por umas das partes. Aqui está a raiz de todos os males. Seguiram -se outros erros -crimes de um lado e do outro.Nas matas Samvibi mandava matar(segundo testemunas) e o desaparecimento de Tito Tchingunje, Wilson dos Santos são exemplos disto. O que se diz de Samvibi , também diz -se do Mpla , de Agostinho Neto , e de outros que hoje ostentam o luxo por Luanda: Sou do Lobito. Naltura da caminhada para as matas fiquei com o meu pai. Acompanhei tudo e todos os acontecimentos que ocorreram nas cidades : Jamais me esquecerei do mês de Maio de 1977, e dos meses que seguiram. Conheci professores, intelectuiais, estudantes e gente simples que desapareceu até hoje, ninguém faz memoria deles . Eu pessoalmente , fui convidado a ir para o campo da Santa Cruz( Antigo campo do Futebol CLube do Lobito) alegadamente para assistir um jogo de futebol, qual jogo , foi uma partida de fuzilamento. Tinha eu 10 anos . Até hoje retenho aquelas imagens de fuzilamento, de balas a perfurar os crânios . Vejo com os meus olhos, o meu vizinho do Bairro da Kaimama, que foi fuzilado, juntamente com outros 5 ou 6 homens, e cuja esposa, viúva , e filhos , orfãos foram proibidos de fazerem obito ou mesmo de chorar. Angolanos , pesoal do Lobito , sós testemunhas destes acontecimentos , digam-me lá se isto não é CRIME CONTRA A HUMANIDADE. O Crime só tem um sentido !!!? Unita e Savimbi. Nas nossas análises devemos ser honestos e objctivos. Houve acções indignas de um e outro lado. Admiro , o Dr.Agostinho Neto lutou por causa justa,( em 1979 quando morreu deixou uma quantia de 70 kuanza),portanto, viu-se que procurou instaurar uma Angola onde todos tivessem o minimo de condições, mas não deixo de reprovar muitas das suas acções, admiro igualmente o Dr. Savimbi , que defendia a prioridade para os angolanos "primeiro o Angolano...", tambem reprovo muitas das suas acções. Savimbi não é o "Demónio" ... Agostinho Neto, e o actual Presidente não é um " Santinho" um " Anjinho" , que nenhum crime praticou. Se houve erros ao longo do percurso da conquista da liberdade em Angola , estes erros foram cometidos por todos. Savimbi , pelo que fez de positivo deve ser louvado.

Simiti,Portugal( tirado do comentário ao artigo de Sousa Jamba "Epopeia Savimbiana",in www.angonoticias.com)

3 comentários:

Manuel disse...

Caro amigo
Vivi no Lobito até aos meus 18 anos. Acreditava que depois da independência pudéssemos todos conviver em sã harmonia, embora tivesse consciência que as condições tivessem mudado e deixássemos de ter o estatuto de Colono para ser de emigrante ou outro, pois sempre reconheci que todos tinhamos os mesmos direitos e deveres. Infelizmente aquelas situações que refere no texto, também as vivi um poco, mas acredito que quem ficou ainda sofreu mais do que eu e os meus pais.
Tenhamos esperança que as coisas melhorem e que estas feridas fiquem curadas pois Angola é um grande país que terá uma palavra a dizer, para o futuro.
Um grande abraço.

Anónimo disse...

O PERCURSO De DR HUGO JOSÉ AZANCOT DE MENEZES

Hugo de Menezes nasceu na cidade de São Tomé a 02 de fevereiro de 1928, filho do Dr Ayres Sacramento de Menezes.

Aos três anos de idade chegou a Angola onde fez o ensino primário.
Nos anos 40, fez o estudo secundário e superior em Lisboa, onde concluiu o curso de medicina pela faculdade de Lisboa.
Neste pais, participou na fundação e direcção de associações estudantis, como a casa dos estudantes do império juntamente com Mário Pinto de Andrade ,Jacob Azancot de Menezes, Manuel Pedro Azancot de Menezes, Marcelino dos Santos e outros.
Em janeiro de 1959 parte de Lisboa para Londres com objectivo de fazer uma especialidade, e contactar nacionalistas das colónias de expressão inglesa como Joshua Nkomo( então presidente da Zapu, e mais tarde vice-presidente do Zimbabué),George Houser ( director executivo do Américan Commitee on África),Alão Bashorun ( defensor de Naby Yola ,na Nigéria e bastonário da ordem dos advogados no mesmo pais9, Felix Moumié ( presidente da UPC, União das populações dos Camarões),Bem Barka (na altura secretário da UMT- União Marroquina do trabalho), e outros, os quais se tornou amigo e confidente das suas ideias revolucionárias.
Uns meses depois vai para Paris, onde se junta a nacionalistas da Fianfe ( políticos nacionalistas das ex. colónias Francesas ) como por exemplo Henry Lopez( actualmente embaixador do Congo em Paris),o então embaixador da Guiné-Conacry em Paris( Naby Yola).
A este último pediu para ir para Conacry, não só com objectivo de exercer a sua profissão de médico como também para prosseguir as actividades políticas iniciadas em lisboa.
Desta forma ,Hugo de Menezes chega ao já independente pais africano a 05-de agosto de 1959 por decisão do próprio presidente Sekou -Touré.
Em fevereiro de 1960 apresenta-se em Tunes na 2ª conferência dos povos africanos, como membro do MAC , com ele encontram-se Amilcar Cabral, Viriato da Cruz, Mario Pinto de Andrade , e outros.
Encontram-se igualmente presente o nacionalista Gilmore ,hoje Holden Roberto , com o qual a partir desta data iniciou correspondência e diálogo assíduos.
De regresso ao pais que o acolheu, Hugo utiliza da sua influência junto do presidente Sekou-touré a fim de permitir a entrada de alguns camaradas seus que então pudessem lançar o grito da liberdade.

Lúcio Lara e sua família foram os primeiros, seguindo-lhe Viriato da Cruz e esposa Maria Eugénia Cruz , Mário de Andrade , Amílcar Cabral e dr Eduardo Macedo dos Santos e esposa Maria Judith dos Santos e Maria da Conceição Boavida que em conjunto com a esposa do Dr Hugo José Azancot de Menezes a Maria de La Salette Guerra de Menezes criam o primeiro núcleo da OMA ( fundada a organização das mulheres angolanas ) sendo cinco as fundadoras da OMA ( Ruth Lara ,Maria de La Salete Guerra de Menezes ,Maria da Conceição Boavida ( esposa do Dr Américo Boavida), Maria Judith dos Santos (esposa de um dos fundadores do M.P.L.A Dr Eduardo dos Santos) ,Helena Trovoada (esposa de Miguel Trovoada antigo presidente de São Tomé e Príncipe).
A Maria De La Salette como militante participa em diversas actividades da OMA e em sua casa aloja a Diolinda Rodrigues de Almeida e Matias Rodrigues Miguéis .


Na residência de Hugo, noites e dias árduos ,passados em discussões e trabalho… nasce o MPLA ( movimento popular de libertação de Angola).
Desta forma é criado o 1º comité director do MPLA ,possuindo Menezes o cartão nº 6,sendo na realidade Membro fundador nº5 do MPLA .
De todos ,é o único que possui uma actividade remunerada, utilizando o seu rendimento e meio de transporte pessoal para que o movimento desse os seus primeiros passos.
Dr Hugo de Menezes e Dr Eduardo Macedo dos Santos fazem os primeiros contactos com os refugiados angolanos existentes no Congo de forma clandestina.

A 5 de agosto de 1961 parte com a família para o Congo Leopoldville ,aí forma com outros jovens médicos angolanos recém chegados o CVAAR ( centro voluntário de assistência aos Angolanos refugiados).

Participou na aquisição clandestina de armas de um paiol do governo congolês.
Em 1962 representa o MPLA em Accra(Ghana ) como Freedom Fighters e a esposa tornando-se locutora da rádio GHANA para emissões em língua portuguesa.

Em Accra , contando unicamente com os seus próprios meios, redigiu e editou o primeiro jornal do MPLA , Faúlha.

Em 1964 entrevistou Ernesto Che Guevara como repórter do mesmo jornal, na residência do embaixador de Cuba em Ghana , Armando Entralgo Gonzales.
Ainda em Accra, emprega-se na rádio Ghana juntamente com a sua esposa nas emissões de língua portuguesa onde fazem um trabalho excepcional. Enviam para todo mundo mensagens sobre atrocidades do colonialismo português ,e convida os angolanos a reagirem e lutarem pela sua liberdade. Estas emissões são ouvidas por todos cantos de Angola.

Em 1966´é criada a CLSTP (Comité de libertação de São Tomé e Príncipe ),sendo Hugo um dos fundadores.

Neste mesmo ano dá-se o golpe de estado, e Nkwme Nkruma é deposto. Nesta sequência ,Hugo de Menezes como representante dos interesses do MPLA em Accra ,exilou-se na embaixada de Cuba com ordem de Fidel Castro. Com o golpe de estado, as representações diplomáticas que praticavam uma política favorável a Nkwme Nkruma são obrigadas a abandonar Ghana .Nesta sequência , Hugo foge com a família para o Togo.
Em 1967 Dr Hugo José Azancot parte com esposa para a república popular do Congo - Dolisie onde ambos leccionam no Internato de 4 de Fevereiro e dão apoio aos guerrilheiros das bases em especial á Base Augusto Ngangula ,trabalhando paralelamente para o estado Congolês para poder custear as despesas familhares para que seu esposo tivesse uma disponibilidade total no M.P.L.A sem qualquer remuneração.

Em 1968,Agostinho Neto actual presidente do MPLA convida-o a regressar para o movimento no Congo Brazzaville como médico da segunda região militar: Dirige o SAM e dá assistência médica a todos os militantes que vivem a aquela zona. Acompanha os guerrilheiros nas suas bases ,no interior do território Angolano, onde é alcunhado “ CALA a BOCA” por atravessar essa zona considerada perigosa sempre em silêncio.

Hugo de Menezes colabora na abertura do primeiro estabelecimento de ensino primário e secundário em Dolisie ,onde ele e sua esposa dão aulas.

Saturado dos conflitos internos no MPLA ,aliado a difícil e prolongada vida de sobrevivência ,em 1972 parte para Brazzaville.

Em 1973,descontente com a situação no MPLA e a falta de democraticidade interna ,foi ,com os irmãos Mário e Joaquim Pinto de Andrade , Gentil Viana e outros ,signatários do « Manifesto dos 19», que daria lugar a revolta activa. Neste mesmo ano, participa no congresso de Lusaka pela revolta activa.
Em 1974 entra em Angola ,juntamente com Liceu Vieira Dias e Maria de Céu Carmo Reis ( Depois da chegada a Luanda a saída do aeroporto ,um grupo de pessoas organizadas apedrejou o Hugo de tal forma que foi necessário a intervenção do próprio Liceu Vieira Dias).

Em 1977 é convidado para o cargo de director do hospital Maria Pia onde exerce durante alguns anos .

Na década de 80 exerce o cargo de presidente da junta médica nacional ,dirige e elabora o primeiro simpósio nacional de remédios.

Em 1992 participa na formação do PRD ( partido renovador democrático).
Em 1997-1998 é diagnosticado cancro.

A 11 de Maio de 2000 morre Azancot de Menezes, figura mítica da historia Angolana.

Anónimo disse...

O MPLA E A HARMONIZAÇÃO COM O FUTURO

Do ponto de vista de carácter intelectual qual a força que o MPLA da segunda geração representa face ao anterior l?
De que forma a força motriz intelectualizada, para poder ter uma certa representatividade e integração plena na hierarquia científica, produtiva, terciária, secundária e governativa deverá proceder?
Com o tempo esta geração será cada vez mais diminuta.
Esta integração plena e contribuição, a semelhança de uma rede de ligação com a geração dos descendentes do maqui para revalorizar, incrementar, desenvolver, perpetuar a mensagem e os valores do passado recriados numa visão pró-activa na criação de novos valores para fazer frente aos desafios.
Delinear a melhor forma de reestruturar, melhorar, consolidar e fomentar competências na preservação e estimulação de recursos e manutenção de valores conquistados.
A integração de novos valores não implica a destruição ou aniquilamento dos valores herdados arduamente construídos sob o signo da modernização.
Não devemos deixar emergir de forma espontânea e promíscuo o desejo de mudança fácil e abrupto.
O projecto de cidadania tem que comportar o respeito pela preservação de uma identidade.
Por mais complexa ou tradicional, os actores reformistas terão que manter uma postura séria, coerente e pró-activa independentemente das novas motivações e arranjos institucionais que se pretendem introduzir nas novas culturas organizacionais.
O MPLA tem a responsabilidade de capacitar os descendentes de milhares de antigos combatentes por uma questão de honra e compromisso face ao passado.
Devemos fomentar o respeito e valorização contínua das conquistas que representam marcos históricos.
O tempo deve afigurar-se como estimulador e fonte de criatividade institucional.
A recriação dos valores deverá ser uma constante e não motivo de aniquilamento natural.
O fenómeno de integração de novos valores culturais, tanto organizacionais e sociais deveriam ser bem optimizados e enquadrados para não provocar descontrolos.
De que forma o testemunho para as próximas gerações será legado?
De que forma os gurus do MPLA farão essa transferência?
Será que os filhos saberão executar os ensinamentos sabiamente transmitidos para que a transição seja harmoniosa?
Como será a descodificação de tudo isto?
O futuro mais longínquo depende do presente e misteriosamente do passado gradualmente por descodificar.
O MPLA é um só ,com uma complexidade interna própria de uma estrutura dinâmica e de auto-regeneração ,agilidade de pensamento , grande pragmatismo e interactivo.
A fonte de pensamento tem motivos para ser distintiva porque possui modos próprios com certa ancestralidade invulgar, com tendências adaptativas, regeneradoras sempre com pendor de equilíbrio geoestratégico.
Uma das preocupações centrais do MPLA deverá ser cumprir, respeitar a dignidade, respeitabilidade de todos sobreviventes do nacionalismo Angolano numa dimensão do universo civilizacional sempre dentro do espírito vivo.
ESCRITO POR:
AYRES GUERRA AZANCOT DE MENEZES