sábado, junho 25, 2005

VOLTEI AO NAMIBE, AMEI O NAMIBE

(Iª PARTE)
Sábado, 9 de Abril, acordei com mais certeza ainda de que queria mesmo viajar. Acordei apaixonado pelas minhas lembranças, pela vontade de pesquisar, apaixonado por uma pátria agora sem guerra e que oferece, à medida de cada bolso, a possibilidade de ser palmilhada de lês a lês, enquanto o vírus marburg não nos levar a vida. Fazer turismo é finalmente algo que passei a amar cada vez mais. E essa viagem tinha a vantagem de ter as despesas com avião e alojamento pagas pelo Estado, por ser uma saída à convite do Ministério da Juventude e Desportos para representar a província de Benguela na 2ª edição do Festival Jovem Namibe 2005, sob o lema: “Angola 30 Anos, Juventude Clamemos pela Pátria”, de 11 a 16 de Abril. A ansiedade se reforçava ainda mais, pelo facto de já ter estado só por algumas horas no Namibe. Se para muitos “recordar é viver”, para outros “recordar é sofrer duas vezes”. Para mim seriam as duas coisas, embora só estando Namibe teria a certeza.

Vinte elementos compunham a delegação de Benguela, quando o voo apenas tinha capacidade de levar catorze. Logo, dez delegados partiram na primeira caravana, às 10:40 horas, para o voo buscar os restantes às 13:30 horas. Tínhamos a missão de melhorar ou, no mínimo, manter a prestação da equipa que participou da edição anterior do Festival no ano passado. No aeroporto, onde cada delegado recebeu 4 mil e trezentos kwanzas para ajudas de custo, eu dançava e contava gracinhas, mantive o entusiasmo, mesmo depois de perder o telemóvel. Quem ficou abalado foi o Filipe, meu companheiro de viagem, que só voltou a sorrir com o reaparecimento do telemóvel.

Do ar observava a obra da natureza. À medida que o avião avançava, o verde dava lugar ao castanho, solidariamente a vegetação dava lugar ao deserto; era a passagem de Benguela para o Namibe. Ironicamente, os rios que nessa época estão com o caudal sempre alto, pareciam pequenos fios de água movente acastanhada, que contornando serras seguiam fielmente seu destino: o mar. A larga extensão de deserto arenoso nalguns momentos tinha tanta paz e magia que parecia um lençol encarnado sobre uma cama onde dentro de instantes um casal apaixonado estaria a fazer amor, com doses repetidas de orgasmo. Em uma hora e meia de voo tem-se a ilusão de ser a terra tão pura, tão inofensiva…

O grupo voltou a juntar-se às 15 horas e foi “recebido por um funji com calulu e feijão de óleo de palma”, no Parque de Campismo Raul de Sousa Júnior, à beira-mar plantado, na marginal do Namibe. Que espectáculo é a marginal, onde os homens construíram bancos com palas de sombra feitos de betão para tantos e vários proveitos! (Namorar seria um deles, ler, meditar…) Completavam a paisagem, num perímetro de 1,5 km, cerca de 96 roulotes montadas no quadro das festas do mar, com diferentes nomes, incluindo “família Payhama”. No pequeno receptor soava o programa “Rádio Jovem”, da Rádio Namibe. Um dos colaboradores do Rádio Jovem em Luanda interveio por telefone. Tratava-se de Moisés Luís, apresentador do “Revista Musical” da Televisão Pública de Angola (TPA). A conversa girava em torno da participação pouco frutífera dos músicos e artistas angolanos no Award (gala de premiação) da Chanel-O, televisão Sul-africana; ainda no programa, a jovem cantora Yola Araújo em directo e via telefone apresentava a alma do seu mais recente trabalho discográfico “Um pouco diferente”, e não escapou à algumas perguntas “atrevidas” do locutor.

A tarde de sábado e o domingo serviram para nos acomodarmos ao clima e às tendas onde nos alojamos, mas também para observar parcialmente alguns pontos de referência da cidade. Três guias e um autocarro foram postos à disposição dos benguelenses. O curioso é que, excepto a moça, os outros dois guias também não são naturais do Namibe; um é da província de Malange e o outro do Zaire. Minha paixão pela cidade e pela natureza crescia progressivamente por cada surpresa e pela hospitalidade. Meus olhos seguiam instintivamente o movimento das ruas, o dançar do mar, a vaidade do vento, o sorrir de cada rosto e, não sendo crime, o balançar de algumas bundas… Enfim, agradava a ideia de estar de volta no Namibe, dois anos após a última vez, em Agosto de 2003. Mas logo fiquei chocado, enquanto de autocarro girávamos pela da cidade: o mercado informal, vulgo praça do Mandume, já não existe. Aquela moldura humana e o movimento de compra e venda no espaço à entrada, bem nas costelas da cidade, perto da Pensão das Organizações Kilembeketa, a praça que para sempre guardarei na memória, hoje deu lugar à monotonia. Transformou-se numa pálida paragem de táxis internos e para o Lubango. “O terreno foi recebido pelo dono. A praça agora fica no Cinco”, justificou a moça do protocolo, que servia de guia para os delegados de Benguela. Mal sabia ela que mais do que uma praça se havia mexido com o meu passado…!

Porquê 5 de Abril? Se calhar deram ao novo bairro o nome de 25 de Abril, dia revolução pela libertação das colónias portuguesas! Parecia consensual entre os excursionistas, até o guia principal e o motorista nos contarem, pouco depois, a origem do bairro e significado do nome “Cinco”. É que no dia 5 de Abril de 2002, o bairro “Nação” foi drasticamente assolado pelas cheias do rio, resultando em danos materiais consideráveis e alguns mortos; tão grave assim que o bairro foi extinto e os moradores tiveram de ser instalados em terreno baldio fora da cidade, no sentido leste, onde ergueram suas residências com um ordenamento do Governo. Os “heróis” baptizaram o novo bairro de “5 de Abril”, como um marco eterno daqueles que sobreviveram da catástrofe e/ou daqueles “oportunistas” que passaram a ter um pedaço para construir. “Muitos desses que viviam nas garagens e nos anexos aqui na cidade, vieram a correr para ganhar um pouco de terreno para construir”, lembrou o motorista. Lá diz o velho adágio umbundu: “pu’ungunda ukuanjeke opo pekuto li’ukuavipepe” (desgraça de uns, felicidade para outros).

Deixando o 5 de Abril e de volta no centro urbano, mesmo com os assentos sem estofos do nosso “caio” (marca do autocarro), não notamos um único salto. Havia de facto, e sem exagerar, mais saltos no avião do que na estrada, com um tapete de asfalto genuinamente negro e com uma camada de aparentemente quinze centímetros. É uma das poucas situações em que “negro” indica algo de “positivo”. Negro e limpo, o lençol de asfalto dava a sensação de que estaríamos a sonhar ou então recuando até a era colonial, mas não. Era apenas uma obra feita por homens, nos dias de hoje. Alguém entre os excursionistas apontou o facto de chover pouco no Namibe como sendo razão da excelente condição das estradas.

O retracto mental que eu tinha, dum Namibe cidadezinha sem movimento apesar da vantagem do mar, fruto de quatro horas de observação, se desfazia. Na verdade, o que voltei a ver foi uma cidade vasta e limpa, com muitas ruas e edifícios, não sendo também ínfimo o número de carros. Mas como a natureza é mãe do contraste, há uma divergência entre a imagem radiante do Edifício dos Caminhos-de-ferro de Moçâmedes e o estado das carruagens, cuja cor se assemelha às vestes dum menino de rua lavador de carros. No Namibe, algumas partes se parecem mais com a restinga do Lobito e certas esquinas de Benguela, já outras lembram Luanda. Três semelhanças numa só cidade, Namibe; onde na mesma rua em que os mercados e lojas luxuosas disputam a atenção dos interessados, também coabita um muro de adobes idoso e bem vistoso. Era o Namibe, cidade mística, afinal impossível de conhecer em quatro horas. Ao todo, vi nas ruas apenas 4 jovens zungueiros (vendedores ambulantes) e um maluco. Por que será?

Passando pelo hospital Central do Namibe e suas dependências é visível o investimento do Governo no sector social, cenário que condiz com as estruturas do Instituto Médio Normal de Educação (IMNE) e do pólo Universitário. Este último em estreia, vai leccionar cursos do sector marinho (biologia marinha, electricidade e gestão) albergando 400 estudantes, entre os quais provenientes de Luanda e de outras províncias. O desafio do próximo ano é arrancar com as especialidades do Instituto Superior de Ciências de Educação (ISCED): história, geografia, psico-pedagogia, para só citar alguns. As novas instalações do IMNE têm 12 salas de aulas, uma construção que levou cento e oitenta dias, no ano passado, e à cargo da empreiteira Cardis, sob gestão da Gespconsult Lda. Infelizmente, à semelhança de resto do país, no Namibe o IMNE funcionava em instalações da igreja católica, com gastos consideráveis no arrendamento mensal, segundo o guia. A alguns metros a leste, na estrada que dá ao aeroporto, a mesma via que liga o Namibe aos municípios do Tombwa e Virei, fica o lar dos estudantes que, cansado de bronzear-se ao sol exige alguma intervenção. Mesmo não tendo observado o interior, pelo menos a pintura já não tem brilho, enquanto que o capim invadiu o pátio, um favor da natureza que se encarregou daquilo que os homens não fazem, a jardinagem, talvez por falta de iniciativa, ou talvez por comodismo. De resto, a cidade é conhecida pela escassez das chuvas, tanto assim que já um mês se passou desde as últimas chuvas. “Aqui dificilmente chove”, reforçou o guia principal, Vidigal Lopes.

A paragem a seguir foi no Aeroporto Yuri Gagarine, que dista aproximadamente 8 km da cidade do Namibe. Uma rotunda oval logo à chegada chama à atenção não apenas pela tentativa de vegetação, mas pelos símbolos político-militares que constituem o memorial em três cenários: Numa placa de mármore sobre uma estrela, lia-se em letras maiúsculas: “A la memoria del piloto cubano 1º TT. Pedro Pablo Reinoso Bernal, que cayera en el cumplimiento de su deber internacionalista en Namibe el 13.2.88”; o 2º rectângulo oblíquo mostra: “A la memoria del suboficial Luis Moinelo Dias quien cayera en el cumplimiento de su deber internacionalista en 17-5-89”; uma asa de mig, aparentemente tombado, apresenta no centro um círculo colorido com a bandeira do MPLA, ao lado de uma metralhadora neutralizada. Chocante é a monotonia do aeroporto às 2ªs, 4ªs e 6ªs feiras, quer se trate dos voos da Taag, quer de operadoras privadas. “Aqui o movimento de negócios é parado” – lamentou o motorista do autocarro – “Muitas vezes a mercadoria que vem no porto volta ao Lubango” – continuou. Falando em negócios, alguém ainda terá de me explicar a razão do “exagerado” número de farmácias, plantadas de palmo em palmo, mormente na periferia. Impressionante! Certamente, um estrangeiro desinformado talvez se julgasse estar no Uige, a terra campeã das mortes, por doença causada pelo vírus marburg. No aeroporto, dois jornalistas da TV Bahia do Brasil, Júlio César e Wanda Chase, voltavam ao Brasil depois das filmagens sobre a cultura dos povos da Huila e Namibe. Conversamos brevemente sobre as vantagens e jogos de cintura no jornalismo e ofertaram-me um CD de Daniela Mercury. Gostei. (Continua na próxima edição)

Gociante Patissa, sábado, 7 de Maio de 2005
Activista de Educação Cívica e Direitos Humanos e Radialista Amador
Bairro da Santa-Cruz, Lobito, Caixa postal 208-Catumbela

2 comentários:

Anónimo disse...

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board to TTI (Texas Transportation Institute). Senator Cain represented Senate District 2 for
eight years in the Texas Senate and Chaired the Senate State Affairs Subcommittee on
Transportation and served nine terms in the Texas House of Representatives for District 107.

During his twelve years as Chairman of the House Committee on Transportation, Senator Cain�s
efforts on behalf of the people of Texas have been widely recognized. He was named to Texas
Monthly Magazine�s list of Ten Best Legislators, the Dallas Morning News said he was one of
the outstanding legislators of the 73rd session, and the Texas Department of Transportation
awarded him the Russell H. Perry Award in 1995 for his efforts to gain public awareness of
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historical fact and may be "forward looking statements." Forward looking statements are based
on expectations, estimates and projections at the time the statements are made that involve a
number of risks and uncertainties which could cause actual results or events to differ materially
from those presently anticipated. This newsletter was paid four thousand dollars from a party
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words such as: "projects", "foresee", "expects". in compliance with Section 17(.b), we disclose
the holding of IF LH shares prior to the publication of this report. Be aware of an inherent
conflict of interest resulting from such holdings due to our intent to profit from the liquidation
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Cereja disse...

Acordar com vontade de viajar é coisa que nunca me faltou.Apaixonada também estou;Ora plas lembranças, ora por um amor , uma paixão que nunca mais secou.Infelizmente, ainda não conheço esse país.Conheço-o de outros tempos, através de relatos de gente que aí viveu e cresceu.Conheço-o plas palavras do meu amor que aí esteve alguns anos e que, recentemente, para aí voltou.Voltou não para Luanda,a cidade onde viveu,mas para o Namibe,local para ele desconhecido, creio.Mas seja onde for que ele esteja, a sua paixão por essa terra é imensa
Faz hoje,dia 1 de Junho,exactamente 3 meses que aí se encontra e eu desde Março que procuro,sempre que posso,informação,dados sobre tudo que diga respeito ao Namibe.É certo que vamos comunicando por telemóvel e carta(umazinha que ele escreveu)mas eu sonho em fazer lhe uma surpresa e voar até aí.Só que do lado de cá,toda a gente me coloca muitos entraves e o meu maior entrave é sem dúvida,financeiro.Quando digo do lado de cá,quero dizer Portugal,mais propriamente Lisboa.Sou mais uma entre milhares que não são de cá, mas q por uma razão ou outra, cá vieram parar.Sou tripeirinha da silva,de Matosinhos, nascida no Porto.Mas onde é que isto já vai!Pois é,mas a conversa já vai longa e eu quero dar um bem haja por este artigo que,por um lado me anima,porque amou estar no Namibe,mas por outro me preocupa,já que se fala sempre em possibilidade de assaltos,guerra,doença.Mas pprefiro não pensar nisso e continuar a sonhar que um dia destes também eu me vou apaixonar por essa terra linda.
Agradeço a paciência em me aturarem,quem chegar ao fim,claro e dizer "VIVA A VIDA".
Até já MEU MAR.....