sexta-feira, agosto 04, 2006

GESTOS DE ÁFRICA

Há um ano, tive a oportunidade de conhecer as terras de MANDELA. Não sou propriamente a melhor pessoa para falar da África do Sul. Além de ter permanecido por lá noventa dias, embora não como turista, é pouco tempo para perceber muitas dinâmicas. Acresce-se o facto de ser um grande admirador dos Sul-africanos e apaixonado pelo milagre da sua transição para a democracia. O exemplo de coragem e a capacidade de aceitação e superação deles bate fundo e forte no meu pequeno coração.
Mas hoje quero partilhar convosco a beleza e expressividade de um gesto. Passando pelas ruas de JB, Pretória, Petermarsberg(?) ou Durban há um gesto feito pelas mulheres que chama atenção aos observadores atentos. Uma mulher que se preza, quando sauda alguém que não conhece ou então com quem não tem muita intimidade não dá dois pares de beijos. Antes, estende-lhe a mão direita enquanto a mão esquerda segura, ligeiramente, o pulso da mão direita. Até aqui, nada de especial. A novidade, acessível à pessoas atentas, está no movimento que faz com a perna direita. Esta fica, simultaneamente, um pouco atrás e ligeiramente flectida. É um gesto muito rápido.
Intrigado com a situação e porque a curiosidade era muita, perguntei a uma amiga porque faziam aquilo. É sinal de respeito! A resposta foi, no mínimo surpreendente. Entei voltei à carga: mas vocês não fazem isso com toda gente? É verdade! Quando as pessoas já são da nossa intimidade nós vamos deixando de parte algumas regras de cortesia ou algumas formalidades sociais. É tão simples quanto isso. A questão não é fazer com uns e outros não, mas sim adaptar as regras sociais ao contexto. Fiquei estupefacto e sem palavras...
O " problema" voltou à baila quando fui ao Moxico, em meiados de Julho de 2006. No final de semana, fomos convidados a almoçar em casa do amigo do meu colega. Para meu espanto, a esposa do amigo repetiu o mesmo gesto e fiquei apreensivo. Para completar a confusão, quando fomos convidados a sentar à mesa, ela ofereceu-nos uma bacia com água morna para lavar as mãos e uma toalha. O dono de casa começou a comer com as mãos e nós seguimos o gesto. Foi, simplesmente, divino. Nunca vi coisa igual...
Para complicar o quadro, perguntei ao nosso amigo se a esposa era sul-africana. Ele respondeu-me que era do Bié! Na minha incredulidade, dirigi-me a ela em Umbundu e fui respondido à letra. Então, perguntei: donde é o amigo? Sou do Luena! Muita confusão em tão pouco tempo.
Uma vez no hotel, interroguei o meu colega sobre os gestos que tinha presenciado e contei-lhe a minha experiência da África do Sul. Ouviu-me, pacientemente, e disse: meu irmão a África está cheia de gestos e sinais comuns. Mudam os nomes, mas dizem a mesma coisa. O gesto da saudação também encontras na Zâmbia, Zimbabwe, Moçambique... Basta que a mulher seja educada num meio conservador e, uma vez adulta, tenha coragem de apresentar a sua educação.
E aquela de lavar as mãos com água morna e comer com as mãos, enquanto os talhares permanecem arrumados? É uma experiência que trouxemos da Zâmbia. Lá, as pessoas que se prezam, usem gravata ou não, mantêm esse gesto. Os talheres ficam arrumados à mesa, mas quase ninguém os usa.
Gostei da experiência e, sobretudo, da transnacionalidade dos gestos.
Até breve!!!
Upindi Pacatolo

terça-feira, agosto 01, 2006

COSTANGUEIRO II

Sentei pa descansar, quando apareceu um amigo completamente chateiado e aos berros. Tentei fingir que estava demasiado ocupado com os meus problemas, mas foi impossível. O meu amigo estava inconsolável. Foi assim que decidi falar com ele.
Então mano, qual é o problema? Tas a ver aquela via que sai da rotunda do zamba II e pessa pelo bairo azul? Yá tou a ver ( tive de fingir, porque não conheço Luanda, nem estou a ver..., talvez na imaginação, mas nem ai...). Apanhei ai o hiace pa ir ao trabalho, mas inventaram de fazer obra logo naquela estrada. Resultado: cortaram uma faixa da estrada e na que resta há muito engarrafamento. Pa variar, quando decidi ir à pé pa chegar ao salu antes de me marcarem falta, doutro lado da estrada as obras deram cabo de um cano de água e a rua ta toda "alagoada"( seria alagada se fosse apenas molhada, mas como formaram-se lagos...).
Para passar é preciso apanhar um costangueiro. Como havia muita gente apressada e poucos costangueiros, eles começaram a cobrar 100kz por cada travessia. Que absurdo! É o dobro do preço do taxi. Mas pronto né! Um gazo tem que bazar po salu e pronto, paga. Mas o pior tava pa chegar. Quando mesmo chegou a minha vez pa passar, epa quase a chegar no passeio o costangueiro começou a reclamar: Kota é muito bebucho, tem que dar 200kz, se não desce. Puto tas a gozar ou quê? Vou descer como? Então paga senão desce aqui mesmo!
Para meu azar: o puto fez-me descer! Com os sapatos e as claças entrei naquele alagoado e era uma vez: falta no salu, sapatos rebentados, e roupa molhada. Aquem devo pedir a responsabilidade pelos prejuízos?
Será que temos que fixar também o preço dos costangueiros pa travar a concorrência desleal ou
e preciso ter cuidado com os trabalhos nas estradas? Precisa-se, com urgência, recuperar a ética da responsabilização e fiscalização das obras públicas, porque no fim da linha é o pacato cidadão que paga a factura pesada.
Até breve!!!
Upindi Pacatolo

segunda-feira, julho 24, 2006

COSTANGUEIRO

Desta vez, escrevo a partir de Luanda, a »cidade da confusão». Encontro-me na também cidade da Kianda desde 05 de Julho. Já estive nas cidades do Lobito e Benguela e a imagem não foge muito da confusão de Luanda. Tive também a sorte de viajar ao Luena, onde fiquei 8 dias a trabalhar na preparação e realização de uma conferência sobre o papel das eleições na promoção da democracia e da reconciliação nacional. Em próximos apontamentos, espero poder falar dessas emoções e impressões de regressar à terra e viajar pelo leste.
Hoje quero partilhar convosco uma nova profissão criada pelos angolanos: "Costangueiro". Quando cheguei à casa, nas conversas com as minhas irmãs falaram-me de certo grupo de pessoas que só comem quando chove. Diante da minha indiferença, uma das minhas irmãs perguntou: « mano, sabes porquê eles só comem quando chove»? Do alto da minha sapiência respondi: « porque são agricultores e sem chuva têm dificuldades de regar os campos e conseguir alimento». Em uníssono, as minhas irmãs puseram-se a rir da tuguisse e ignorância do mano.
Refeitas da piada e parvoíce do mano, a mais velha pôs-se a explicar: « mano, eles só comem quando chove porque são costangueiros»! «Costa quê»?, returqui eu. «Costangueiro, mano»! «Explica lá isso bem»! Rematei. «Mano, conheços os candongueiros né»? «Ya conheço»! «Então candongueiros e costangueiros são dois meis de transportes. Enquanto o candongueiro te leva de carro, o costangueiro te leva nas costas; enquanto o candongueiro tem sempre clientes e trabalho, o costangueiro só trabalha quando chove, porque é quando as ruas e as estradas estão cheias de água e para as pessoas passarem têm de ser levadas às costas».
De regresso à Luanda e pelos lados de São Paulo deparei-me com um cenário desolador: em pleno cacimbo, isto é, quando não chove, as ruas estavam completamente alagadas e os costangueiros empregados. Então telefonei à minha irmã e disse-lhe: « mana, aqui em Luanda os costangueiros não dependem da chuva pa trabalhar. Há sempre clientes que precisam ser levados às costas para atravessar certas ruas, porque o asfalto e os canos de água não se entendem. Paga o pacato cidadão e o costangueiro ganha o seu pão». Até Dog Murras desconseguiu explicar e cantar essa verdade, já que ele só diz « nosso bairo é o mesmo... quando chove é sartar, se cair maka é teu»!!! E quando não chove? Porque precisamos de costangueiros?
Atenção: não sou contra aqueles que ganham digna e honestamente o seu pão! Mas essa de levar os outros às costas pa atravessar os lagos ou charcos ao longo das estradas e ruas não dá.
Até breve!!!!

Upindi Pacatolo

quinta-feira, abril 20, 2006

«HÁ QUATRO ANOS!!!E QUATRO ANOS DEPOIS???»

Há quatro anos…
Morreu Savimbi em combate, no Leste de Angola. Foi exibida pela Televisão Pública de Angola(TPA) a imagem do corpo de Jonas Savimbi cravado de balas, moscas e profanado. Para quem tinha dúvidas ou alguma esperança no regresso do líder ou numa reviravolta, tudo ficava claro. Era chegado o fim de uma odisseia começada em 1966 no leste de Angola.
Há quatro anos…
Nasceu um duplo desafio para o General Paulo Lukamba “Gato”: 1º parar as hostilidades e devolver a paz aos angolanos; 2º salvar a UNITA de um fim inglório e transformá-la num partido político capaz de abraçar a disputa político, sem recorrer a meios militares.
Há quatro anos…
O General “Gato” mostrou-se à altura do acontecimento e das circunstancias. Por um lado, suspendeu as hostilidades e entabulou negociações com as FAA, assinando-se um cessar fogo, que teria na assinatura do memorando de entendimento, em Luanda na casa mãe das leis, o seu ponto alto. Por outro lado, o General “Gato” começou a percorrer o longo e difícil caminho da unificação e transformação da UNITA. É um caminho que teve o seu ponto alto no congresso que elegeu o Sr. Samakuva como presidente da UNITA. A unidade da UNITA permanece difícil, com altos e baixos…
Quatro anos depois…
A paz é uma realidade inquestionável. O mérito do presidente da república, o engenheiro José Eduardo dos Santos, na conquista da paz militar é incontornável. Os frutos da paz são visíveis na livre circulação de pessoas e bens, na reabilitação das infra-estruturas, na estabilização macro-económica, na corrida de investidores estrangeiros…
Quatro anos depois…
A defesa e garantia dos direitos e liberdades fundamentais dos angolanos é feita de modo tímido ou insipiente. A igualdade perante a lei é uma miragem, para a maioria dos angolanos. A juventude rural e das periferias das grandes cidades continua condenada a um desemprego crónico, quando não está sub-empregada. Os salários da função pública permanecem aquém do custo de vida…
Quatro anos depois…
Continuamos a espera da normalização das instituições políticas do país. As eleições continuam no segredo dos deuses. A oposição e o partido no poder continuam com agendas desencontradas. As grandes questões nacionais ainda são monopólio e privilégio dos “iluminados” dos partidos, “grandes intérpretes” do pensar e sentir nacional. O investimento na educação e na saúde, que mais não são senão o investimento no Homem Angolano e no futuro do país, são uma miragem.
Quatro anos depois…
A UNITA ainda vive os seus dramas e o sonho de ser o maior partido da oposição. A FNLA continua abraços com a sua crise interna de liderança. Os outros todos não inspiram segurança enquanto alternativa ao governo do MPLA… Por esse andar, quando as eleições forem anunciadas, não é muito difícil prever que sirvam para confirmar o óbvio…
Quatro anos depois…
Consola-me saber que pesa sobre a nossa geração, gravemente privada de oportunidades, o desafio de trabalhar e lutar por uma democracia pluralista em Angola e não apenas eleitoral. Esse desafio já começou e temos de procurar pelas oportunidades já que elas tardam em aparecer ou manifestar-se de forma clara e transparente. Eu acredito na nossa geração…
Upindi Pacatolo

sexta-feira, abril 07, 2006

O "KAIRÓS*" DA UNITA

De regresso à terra, tive a oportunidade de voltar às nossas conversas com a avó Cambundu, aquem o peso da idade vai vergando. Desta feita, obriguei-a ir bem fundo da sua memória e resgatar de lá alguns dados e referências históricas que me ajudassem a compreender um fenómeno que me tem intrigado de algum tempo a esta parte: A "UMBUNDIZAÇÃO" DA UNITA.

A avó Cambundu olhou bem fundo para os meus olhos e pediu-me que a levasse ao quintal para sentar-se à sombra da mulembeira. No seu estilo maternal, convidou-me a sentar-se bem perto das suas cansadas pernas e, afagando a minha carapinha, como o fazia na minha infância vezes sem conta, constatou com surpresa que seu netinho estava a tornar-se num homem calvo!

Depois de muita hesitação, avó Cambundu começou a narrar a sua pesada e dura história. «Em 1961, quando começou a luta de libertação nacional estava a trabalhar nas roças no "nano"(1). Tinha ido lá atrás do teu avô que já lá estava faz três anos. Com os ataques dos nossos irmãos do catanga(2) e com a resposta dos brancos, nós tivemos de fugir e conseguimos chegar mais tarde na nossa aldeia de Etunda Mbulu. Meu filho quando chegamos na nossa aldeia a alegria voltou nos nossos rostos e a força para recomeçar a vida era maior, porque «v'ondjo v'ondjo, nangõ katulila mo omumã!»(3).

Meu filho, nesse ano, alguns familiares fugiram para muito longe e não conseguiram chegar na nossa aldeia. Mais tarde, quando as coisas ficaram calmas, eles voltaram lá nas roças do "nano" para ganhar a vida. Eles eram muito jovens e tinham medo de voltar a aldeia e serem apanhados pelos cipaios e levaram um castigo pesadíssimo ou serem levados de volta e perderem o pouco a que podiam ter direito.

Em 1974, quando as tropas da FNLA entraram nas zonas das roças começaram a correr e expulsar todos os trabalhadores das nossas terras. Alguns foram mesmo mortos. O povo teve medo que se voltasse a repetir o 1961, então quase todos saírem de lá e voltaram nas nossas aldeias. Perderam tudo, mas mesmo tudo o que tinham e nunca mais perdoaram os da FNLA.

Quando chegaram aqui nas nossas aldeias, começaram a ouvir falar da UNITA. Esses vinham dos Luchazes(4) e falavam a língua dos luchazes e a nossa, mas eram muito diferentes da FNLA porque não ameaçam e andavam sempre a falar boas coisas. Havia muitos deles que eram camponêses ou filhos do povo e nós conhecíamos muito bem. Eles aconselharam-nos a não desistir e continuar a lutar e a trabalhar a terra. Foi assim que o povo que estava cansado e triste, rapidamente, simpatizou com a UNITA.

Quando a UNITA foi corrida das cidades em 1975/76, muitos acompanharam a UNITA porque acreditavam que a guerra que vinha de cima é muito perigosa e os do "nano" matam tudo. Por isso, o melhor é fugir. Mas o pior ainda tava para acontecer, meu filho». O sol já se punha e a avó começou a sentir frio e pediu-me que a levasse para dentro. Frustrado, fiz-lhe a vontade e deixa-a deitada na sua cama. Finalmente, quando me dirigia para porta de saída, a avó chamou-me e perguntou se eu queria ouvir mais um bocadinho antes dela dormir. Eu disse-lhe que sim

Então avó Cambundu retomou a conversa, mas sem a sequência que estava a espera. « No ano da fome(5), houve kwata-kwata(6) nas nossas aldeias para ir de novo nas roças. Mas desta vez o povo fugiu para as matas e foi entregar-se na UNITA. Foi muita gente, mas muita muita gente mesmo. Cátê aqueles que foram apanhados muitos conseguiram fugir de lá e foram nas matas. Desta vez eles estavam dispostos a lutar e defender a suas aldeias e os seus velhos e crianças. E a guerra teve que durar muito tempo, porque era muito abuso. O teu avô, nesse tempo, dizia aos teus tios «kapeli-ko: ove watopa onambi ya nhõhõ vaenda layo»(7).

Nesse entretanto, avó Cambundu adormeceu e deixou-me com água na boca. Mas, prometo voltar mais cedo e aproveitar gravar algumas histórias da minha querida avó e tentar parlhar algumas delas convosco. Fica a ideia que há momentos históricos fortes marcados com erros da FNLA e do Governo do MPLA que ajudaram a UMBUNDIZAR a UNITA. Esses elementos não tiram mérito à capacidade de mobilização dos dirigentes desse partido.

Notas: * Kairós=tempo de graça; (1) Nano: equivale a norte; (2) Catanga: equivale a provenientes do Zaire;
(3) V'ondjo v'ondjo nangõ katulila mo omumã(literalmente= mais vale ter uma casa, ainda que não se coma nela o fígado). Em casa estamos sempre bem, mesmo quando não temos posses para comer do bom e do melhor.
(4)Luchazes: equivale a leste;(5) ano da fome: equivale a 1977/78; (6)kwata kwata: é a guerra do "apanha apanha" para levar os campoêses do sul para as roças do norte;
(7) Kapeli-ko: ove watopa, onambi ya nhõhõ vaenda layo(literalmente=Cuidado: se fores burro, tiram-te o direito de chorares e sepultares a tua mãe). Se não te acautelares, tiram-te a liberdade conquistada e não serás capaz de cuidar da tua mãe, dos teus e da tua terra; outros contarão a tua história, por isso, resiste!!!

Upindi Pacatolo

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

AGORA É QUE VÃO APANHAR CAFÉ!!!

Há quatro anos, num belo domingo 24 de Fevereiro de 2002, encontrava-me numa das Igrejas do Lobito a meditar, momentos antes da Missa Dominical das 10h00. Nesse instante, entra uma senhora amiga, na casa dos seus 50 anos, toca-me no ombro esquerdo e diz « sekulu wafa, kalye wendi k'ondalatu! v'ukanoli o café k'imbo lyamale!» (1). Confesso que entendi o que disse, mas não compreendi e nem consegui fazer o devido enquadramento. Intrigado, tentei concentrar-me na missa que estava prestes a começar.
Quando terminou a missa, saí da Igreja e fiquei lá fora a conversar com amigos. Eis que aparece o nosso pároco que se junta ao grupo e participa da conversa. Dada a nossa proximidade, seguimos juntos para almoçar. Durante o almoço vieram-me as frases da senhora e disse-as ao padre, na esperança que ele me ajudasse a fazer o devido enquadramento. Para meu espanto, jovem da casa dos vinte anos, aquelas palavras tinham uma verdade histórica que eu desconhecia completamente.
No rescaldo da guerra imediatamente a seguir a Independência, entre os anos de 1976 a 1978, houve uma brutal escassez de alimentos e paralização dos campos de algodão e café do norte de Angola. Para fazer face a esse desafio, o governo de Angola reeditou a guerra do Kwata-Kwata (2) nas terras do planalto e sul de Angola (3) afim de obter trabalhadores agrícolas indispensáveis para revitalização da agricultura nas roças do norte.
Se com a independência, os camponêses do planalto e sul de Angola puderam sonhar com o fim do seu recrutamento forçado para aquelas roças, a sua reedição por um governo independente foi um golpe duríssimo na sua ilusória liberdade. O líder da UNITA, Jonas Savimbi, agastado com a fraqueza e quase exaustão das forças que conseguiram sobreviver à retira das cidades, em direcção as matas do leste (Jamba), onde se reorganizará a luta de resistência, aproveitará esse facto mais a presença dos cubanos para moblizar aqueles camponêses e relativos à sua causa. O aproveitamento político desse facto e o apelo à resistência a guerra do Kwata-Kwata e a invasão cubana atraiu para as matas muita gente farta da opressão e brutalidade das roças. Conta a história que foi assim que Savimbi conseguiu pôr fim a guerra do Kwata-Kwata. É bem conhecida a máxima Umbundu que Savimbi usava com frequência «ise okufa, etombo livala» (4).
Talvez isso explica, em parte, porque pessoas da minha geração naturais das zonas do planalto e sul de Angola tenham crescido em meios onde os adultos nutriam (e nutrem) uma grande admiração e respeito, quando não devoção, pelo mais velho (Savimbi), que consideravam seu libertador tanto da opressão colonial quanto da opressão do novo governo, malgrado todos os dizeres verdadeiros ou não das atrocidades do mais velho.
Mas para os nascidos depois da independência continua a existir muitas coisas difíceis de compreender, hoje, porque a história foi-lhes negada por muito tempo. Os que a viveram preferem calar, quando não a contam com muita amargura, sendo difícil distinguir o facto da sua recriação. Dessa forma aprendi mais um pouquinho da nossa difícil e complicada história política.

(1) Morreu o mais velho, agora ireis apanhar café em terras do norte como contratados;
(2) Guerra do Kwata-Kwata: literalmente, guerra do apanha-apanha. Foi desencadeada pelas autoridades coloniais para apanhar camponêses e enviá-los às roças, sobretudo do norte de Angola. As famosas levas de contratados Ovimbundu ou Bailundo;
(3) Planalto e Sul de Angola: pessoalmente, não gosto de usar essas expressões, mas servem para identificar o antigo corredor do Planalto de Benguela ou zonas de povoamento Ovimbundu; assim como, as zonas do norte, identificam as de povoamento Kimbundu mais Kikongo (roças do Uige);
(4) Prefiro antes a morte, do que a escravatura. É um forte apelo a resistência por justa causa: manter a dignidade e a honra do convento.Mas não se compreende plenamente sem a sua complementar: «na floresta, a árvore que não obedece ao vento quebra». Isto é, quando a resistência não é possível, a sabedoria aconselha obediência para sobreviver e contar a história.»

Upindi Pacatolo

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

A CHANA DA VERGONHA!

Há quatro anos morria, nas chanas do Leste de Angola, Lucusse, Jonas Malheiro Savimbi. Para uns, morria o pai fundador da UNITA, líder histórico, carismático, controverso... Para outros, simplesmente, um criminoso de guerra, um sanguinário... enfim, um "Calvário Chamado Jonas"*. A par das lutas político-partidárias e das questões intestinais ou figadais, relacionadas com o nome e a pessoa de foi Jonas Malheiro Savimbi, quero reflectir sobre uma coincidência histórica ou não e de algum desagrado com a mídia televisiva, dependendo do ângulo de leitura do leitor.
A expressão que dá título a esta reflexão é do dr. Savimbi. Foi usada em Agosto ou Setembro de 1974, aquando da assinatura do acordo de cessar fogo entre o MPLA-Neto e o exército português, no Lucusse. Jonas Savimbi, nessa expressão, resume aquilo que para ele significou a "traição portuguesa".
Quando se dá o 25 de Abril, em Portugal, o MPLA encontrava-se dividido em três facções: Neto, Chipenda e Joaquim Pinto de Andrade. Chipenda era o comandante das forças do MPLA, na frente Leste. Uma vez em ruptura com o MPLA-Neto, significava que esta ala não tinha presença na frente leste. Mas para mostrar que o MPLA-Neto tinha presença no Leste de Angola, foi criado um cenário militar de guerrilha para acolher o dr.Agostinho Neto que vinha de helicópetero das forças armadas portuguesas para assinar o cessar fogo no interior de Angola. Devido a encenação e ao simbolismo que revestiu e revestirá para o MPLA-Neto, Jonas Savimbi chamou ao Lucusse "A CHANA DA VERGONHA", porque marcava "a primeira traição" de Portugal aos destinos do povo angolano.
No dia 22 de Fevereiro de 2002, Jonas Savimbi morre no Lucusse, aquela que há 28 anos era a "CHANA DA VERGONHA". Porque o seu fim se deu no Lucusse e não noutro lugar? É mera coincidência ou quereria significar alguma coisa mais? Será que quereria terminar onde começou a UNITA (Muangai) e não foi a tempo? Ou quereria completar o círculo da traição começada no Lucusse? Mas então qual é a traição final: a dos seus companheiros e/ou do povo que dizia defender e o terá entregue? Ou a sua em relação aos seus companheiros e/ou ao povo que dizia defender? Como a nossa intenção não é responder a esses interrogatórios, mas colocar a questões passaremos para a análise de outro ponto: tratamento da imagem.
As imagens que nos chegaram e foram distribuidas pela TPA constituiram, entre outras coisas, uma elevada profanação da sacralidade da morte. Aprendemos desde tenra idade que os mortos são sagrados e, malgrado a lógica da guerra, devem merecer um mínimo de dignidade.
Para quem acompanha as imagens de sinistralidade dos ataques terroristas que tiveram lugar em países ocidentais, desde o 11 de Setembro, há-de constatar que os mortos não têm rosto. Fala-se do número, mostram-se, as vezes, alguns corpos, mas sem rosto, isto é, reserva-se a dignidade a que têm direito. Mas então que fizemos dos nossos princípios sagrados? Dir-me-ão: ele não respeitava os vivos! Quanto mais os mortos? Pois bem, quando não temos elevação moral suficiente para preservarmos a dignidade que existe em nós, penso eu, que nos tornámos pior do que aquele que queremos sancionar.
Queria partilhar com todos, mas sobretudo os meus coetâneos que sobre a nossa história podem não ter algumas informações, daí a incursão pela história na primeira parte. Na segunda, é um desagrado pela nossa mídia no tratamento das imagens dos mortos, doentes de sida, estropiados...

*Título do livro do ex-deputado do MPLA, Alexandre Gurgel " Um Calvário Chamado Jonas"(1999/2000?)???( que alguém me ajude a precisar a referência!!!).

Upindi Pacatolo

terça-feira, fevereiro 14, 2006

DASABITUAÇÃO DA LÓGICA ILÓGICA

É segunda feira. São 19h30, encontro-me na biblioteca João Paulo II da Universidade Católica Portuguesa. Depois de horas passadas a estudar, eis que me levanto e arrumo as minhas vikuatas*. Nesse instante, sinto atrás de mim alguém a fazer o mesmo e, então, viro-me para identificar a pessoa: era um irmão nosso. Despachei-me e saí à toda pressa, mas estacionei à entrada fingindo ler uns periódicos, já que o nosso irmão seguia-me. Quando ele saiu, a ordem inverteu-se: começei a seguir o meu seguidor. Apanhei-o antes dos semáforos.
Para não variar, meti conversa com o nosso amigo e percebi que era um compatriota. Perguntei: o que fazia pela Católica? Respondeu: estou a fazer uma Pós-graduação. Donde és? Sou de Luanda. Desculpa, na verdade vivo em Luanda, mas sou do Lobito. Wau, exclamei lá bem dentro de mim, e voltei a carga: de que zona és, no Lobito? Restinga! Que chique, disse para mim mesmo. Em que rua da Restinga? Para meu desalento, o nosso compatriótica sentiu-se encurralado e disparou: porquê tanta pergunta? És angolano? Conheces o Lobito? Confesso que fiquei engasgado, porque o interrogatório estava a correr tão bem que não temi que fosse voltar a ficar em desvantagem. Então respondi: sou angolano! Não se nota? Não! O teu sotaque é diferente!!! Fiquei triste, porque até agora estava convencido de que o meu sotaque voltara ao "normal", mas engano meu!!!
Passado este momento, o nosso amigo abriu o coração e disse: na verdade, sou do Kuito-Bié. Não percebi o jogo, porque estava desabituado dessa lógica das omissões ou adopção de novas naturalidades. Por sorte, fez-se luz e comecei a raciocinar, passando-me pela cabeça o filme todo de quantos angolanos conhecidos e anónimos das terras do Huambo, Bié e Interior de Benguela que negaram as suas naturalidades com medo de represálias ou de fecharem-se-lhes as portas da sorte ou oportunidades, daí optarem por ser, preferentemente, de Luanda ou Lobito, quando não Catete!!!( basta ler "Os Predadores" de Pepetela").
A guerra que assolou o país parece ter criado indelevelmente cidadãos estratificados por categorias absurdos: diz-me donde és e dir-te-ei quem tu és. Que absurdo! Que sinismo! Mas é a verdade verdadeira sobre a nossa história recente e, pior ainda, futura, já que não se vislumbra vontade política nem académica para nos livrar-mos da propaganda militar e política. Peço desculpa por ter dito vontade académica, na verdade queria dizer propaganda escolar, uma vez que a cultura académica está mais lenta que a reabilitação do CFB(Caminho de Ferro de Benguela).
Na recta final da nossa conversa, perguntei pelo nome do nosso amigo. Disse-me primeiro o nome português, como manda a boa regra de etiqueta angolana. Pensando consigo que acabara o interrogatório, voltei a carga:João** quê? João Kambundi! Então pus-me a explicar-lhe o nome Umbundu e, para meu espanto, o irmão soltou um sorriso e disse: na verdade és mesmo da zona! A frase saiu como um suspiro de alívio, porque percebera que eu era um dos seus e a conversa tomou outro rumo, com o nosso Umbundu a mistura. O resto do filme fica para mim!!!
Pensei que você tem o direito de saber que muito do que toma por adquirido, hoje em Angola, faz ainda parte duma lógica de guerra e propaganda política. Onde ser-se das terras do planalto central ou interior de Benguela era e, infelizmente, continua a ser sinónimo de pertença à UNITA. Este mito foi alimentado pela própria UNITA para justificar e legitimar a sua luta em defesa duma suposta "maioria" e pelo próprio Governo do MPLA para legitimar a sua luta contra um líder étnico e seus sequazes. Tudo lógica da guerra e propaganda política, com meias verdades, ofuscando a «verdade efectiva».
Como resultado: temos pessoas que para sobreviverem e terem acesso a oportunidades razoáveis, no seu próprio país, tiveram que renunciar as suas naturalidades "incómodas" e guardarem bem longe a sua memória colectiva até o uso da sua língua, inventando outras histórias e heróis para os filhos. Desafio: a nós, geração das incertezas e oportunidades, cabe o desafio de separar, no discurso do dia-a-dia a propaganda política da «verdade efectiva dos factos».***

É pura realidade e qualquer semelhança com a ficção é apenas coincidência.

*Vikuatas=haveres, pertenças
**Nome fictício, mas o segundo é o nome duma raíz usada na Kissangua(sumo de milho) "Mbundi", sendo "Kambundi" o diminuitivo por prefixação.
***Maquiavel, "O Príncipe"

Upindi Pacatolo

terça-feira, janeiro 17, 2006

RAUL DAVID NÃO MORREU

“No news is good news”. Lembrei da máxima inglesa segundo a qual nenhuma notícia é boa… porque agrada uns e desagrada outros. Só que, me recusava a acreditar que existisse alguém alegre com a notícia da morte de Raul Mateus David. Enquanto viveu, Tio Raul, como era tratado, conquistou para si vários títulos: poeta, historiador, escritor, actor, ex-adido cultural da embaixada de Angola no Zimbabué, etc. E não será a idade nem a morte que apagarão o que escreveu com suor e muita massa cinzenta. Se não for recordado por isso, que ao menos seja por (aos 86 anos) deixar entre órfãos um bebé, e 11 livros publicados. Um verdadeiro homem de obras!
A morte por cá é, na realidade, um infortúnio de difícil convivência, cujo efeito só o tempo ajuda a aceitar. As formas de manifestação do inconformismo são variadíssimas: canções, danças, conversas, forma de vestir, nomes que se atribuem aos órfãos, etc. Traiçoeira, inesperada, infausta… E nesse caso, nem a mediática idade foi tida e achada na hora de avaliar eventuais factores para o falecimento do Velho, nascido no município da Ganda. Reacções: notas fúnebres de todo o lugar inundavam as redacções da mídia, parecendo mais um daqueles engarrafamentos na estrada Lobito/Benguela quando mais um rico vai a enterrar. Excelente momento para se dissipar qualquer dúvida sobre a importância de Raul David nos mais diversos segmentos sociais.
Porém, e sem querer julgar ninguém, quem viu o talk show Janela Aberta, da TPA – Televisão Pública de Angola, edição de segunda-feira, 21 de Fevereiro, entendeu, nas palavras de Analtina Dias, co-apresentadora, como nem tudo corria bem na vida de Raul David. Sem precisar ir a fundo, com cara de consternação revelou Analtina que, “por vezes, quando alguém goza de um status social, a impressão que temos é a de que tudo vai bem; mas o lado triste é que os apoios não vêm quando mais se precisam”. Quem viu o Janela Aberta ficou a saber igualmente, através da Jornalista, que Tio Raul esteve internado numa das clínicas do município do Lobito, onde há alguns dias vinha recebendo tratamento, com “uma recuperação satisfatória, segundo os médicos”. Não é preciso ser génio para perceber nas entrelinhas eventuais causas secundárias.
“O governo de Benguela já criou uma comissão para preparar as exéquias fúnebres do escritor Raul David, falecido no princípio da noite passada, aos 86 anos”, ouvia-se num dos noticiários da Rádio Nacional de Angola. Confesso que não sei, ao certo, de que horas era referente o noticiário. Nessa vida, às vezes fica difícil distinguir quando começa a manhã e quando termina a noite, pois é, como digo, se isolarmos as horas do relógio e as lógicas da sucessão dos dias e das noites; a questão é simples: tanto se sonha de dia (quando nos ferra o sonho de uma vida melhor num toque de magia – já que com o salário nem vale a pena contar); como também passamos as noites acordados (quando nos ferram ou a insónia constante da falta de mosquiteiros ou a carga emocional do dia a dia). É Angola a crescer, e estamos cá para contribuir!
A recente homenagem do Ministério da Cultura foi a sua última “ceia” com intelectuais de Benguela, quando, com gosto e carinho, se enalteceu, na voz do historiador Arjago, a vida e obra de Raul David, o homem também conhecido pelo seu “português e vestir de português/branco”.
Ainda guardo em memória as estórias e fábulas que ouvi de Raul David, quando em 1996 eu frequentava as gravações de um programa infantil da TPA-Benguela. Com ansiedade aguardo a oportunidade de assistir ao “Comboio da Canhoca”, filme de que o Velho foi actor, ler “Colonizados e colonizadores” – livro seu bastante referenciado. Nunca é tarde demais.
Vai a enterrar em breve no Cemitério da Camunda com toda a pompa e já imagino o desfile de alguns que disputarão com o caixão a atenção da imprensa. Detesto oportunismos e, não tendo havido em vida ligação entre nós, não vou ao funeral. Do meu canto acompanharei tudo, porque como Umbundu aprendi que “onambi lonambi ikwete una Yaloña” (“cada macaco no seu galho”).

PS: se para uns recordar é viver, para outros é sofrer duas vezes. Nas vésperas do primeiro aniversário do passamento físico do escritor angolano, Raul David, resolvi retomar esse texto que elaborei naquela altura.


Gociante Patissa, Lobito

sexta-feira, dezembro 30, 2005

HÁ UM ANO

Quando tudo parece indicar que não há força para continuar com o nosso blog, é com alguma satisfação que assinalamos o nosso primeiro ano de vida. Diz o povo que começar é ter meio caminho andado. Pior mesmo é não começar. No meio das dificuldades, o importante é não perder a vontade de fazer caminho caminhando.
A sabedoria Umbundu é eloquente quando diz «otchinimbu wateta k'onhohã otcho tch'ove»( qui potui capere caepi, diriam os latinos)*. Na verdade, fiz a minha parte que é criar um espaço de exercício de cidadania. A sua manutenção depende de todos: aqueles que escrevem, os que lêem e nos criticam, sugerindo mudanças.
Esperamos continuar nesse caminho de servir e facilitar o exercício de cidadania. Vai um obrigado especial ao Padre Martinho Kavaya, no Brasil, que nos escreveu na primeira hora; ao Gociante Patissa, no Lobito, que nos tem brindado com as suas brilhantes crónicas; ao Pedro Romão, no Porto, que nos autorizou a republicar os seus artigos do angonotícias no começo, mas parece ter-se "desabituado" de escrever; ao Samy de Jesus, em Benguela, que nos brindou com a sua crónica eclesial; aqueles que prometeram enviar-nos os seus textos, mas ainda não o fizeram... Aqueles que nos visitam e divulgam, são motivo de nossa satisfação e orgulho.
Parabéns a todos nós. Até 2006.
*O provérbio Umbundu corresponde a ideia de «dever cumprido, apesar das contrariedades da vida» ( da cobra é nosso o pedaço que temos na mão).
Upindi Pacatolo

quinta-feira, novembro 24, 2005

LÍNGUA MATERNA OU OFICIAL?

Quinta-feira, 23/09/05. Sei que há quem esteja à espera da hora 19, para se sentar diante do canal 2 da TPA, porque “…é dia de mudar de vida!”, como nos tortura em jeito de publicidade a turma do “Angola dá sorte”. Uns realmente ganham, eu porém faço parte dos que só perdem. Aliás, o primeiro sinal, hoje, é ter perdido o sono antes das duas da manhã.
Deixo a cama, pego nos meus livros, ligo o diskman e uns kizombas dão-me banho. Tento ler, mas me vem à cabeça a pressão social (aquilo que queremos não nos quer; aquilo que não desejamos nos persegue). Insisto, mas não consigo mesmo concentrar-me à leitura. Então recorro ao meu habitual consolo – um bloco e uma bick azul – e ponho-me a escrever. De princípio a letra é feia, mas vai ficar bonita logo no computador.
Disse um angolano na Tuga, certo dia, que a vida se resumia em duas grandes desvantagens: uma era ser jovem e a outra ser mulher. Fiquemos hoje com a primeira. Ora não se tem a idade nem a qualificação ideal para certas oportunidades, ora já se passou dos 30 anos e não dá, mesmo depois de estabelecido o parâmetro 15-35 anos como padrão de juventude. Reclamamos, insultamos as instituições, praguejamos e tudo o mais. Mas também nos lembramos de certas conquistas colectivas e vemos que vale a pena lutar, basta estarmos atentos ao que vai pela imprensa e lubrificar sempre os mecanismos da amizade. Afinal, o autor de “renúncia impossível”, que a dado passo reconhecia “atingi o zero”, foi presidente desse país.
Encontrava-me ainda em Luanda, num seminário, quando um telefonema amigo me incentivou a concorrer à uma vaga numa companhia petrolífera. Confesso, não acredito em nenhum concurso no meu próprio país, muito mais quando dirigido por irmãos angolanos. Mas tento, às vezes, não ser carrasco de mim mesmo e retribuo a consideração dos amigos que gastam do seu saldo e da sua saliva em conselhos. Assim, anteontem, juntei o monte de documentos e fui ao centro de emprego, do Ministério do Trabalho, na minha cidade. (É curioso como a nossa vida é em tamanho A4: certidões de nascimento, contratos, títulos de salário, cartas de despedimentos, certidão de casamento, facturas de luz e telefone, etc., tudo em A4.)
Uma vez lá, encontro um senhor cuja testa parecia estar há anos sem saber o que é sorrir. Pronto, saúdo e avanço, a final não estava ali para semear amizades. Na secção a seguir, uma senhora dá-me o formulário e algumas instruções. Escrevo tão rápido que, volta e meia, tinha tudo preenchido… e a discussão inicia com a atendedora: tudo porque preenchi o Umbundu como sendo a minha língua materna. “A nossa língua materna é aquela que falamos”, dizia ela. Pois claro, mas é essa mesmo a minha língua de berço; tanto o português como o inglês, eu aprendi foi na escola. Que azar me arranjei?! A senhora submeteu-me então a uma cátedra: “língua materna é aquela que herdamos do colonizador, porque é a língua que nos une; olha, um zairense, por exemplo, na escola fala lingala? Claro que não, moço!” Impotente e em desvantagem, disse-lhe apenas que era complicado. “Pois, mas estou-te a fazer entender agora que, no espaço língua materna, escreva português, porque o Umbundu é dialecto apenas!”, ditava ela. Os meus suspiros e reticências não a impediram de pegar no corrector e, a mando dela, eu declarar o português como “minha língua materna”, relegando o meu doce Umbundu ao segundo plano. Deixei o Centro de Emprego bastante contrariado, quase irritado. Já não basta o que basta, agora também me roubam a minha história, a minha dignidade? Será que por necessitar de uma carreira, perco o direito de ter nascido no Quimbo, ter o Umbundu como primeira língua da minha vida, ligada às primeiras memorias que guardo com honra!?
Agora são três e um quarto, e tento voltar à cama, mendigar algumas horas de sono. Se penso em pessoas como tu, por isso não tenho sono, ou se não tenho sono e por isso penso em pessoas como você, isso importa. A verdade é que, às vezes apetece desistir de tudo e morrer por algumas semanas. Mas depois a nossa consciência diz-nos não ser justo, já que ainda resta algo de que nos orgulharmos: os amigos que temos, o espírito lutador e as conquistas acumuladas diante de tanta impossibilidade. Força, há que erguer a cabeça, ainda que nos pisem sobre ela!

Gociante Patissa, Lobito

BEIJOU MILHÕES DE HOMENS E MULHERES NA BOCA

“Nós nos conhecemos quando era 15”, dizia o mestre pintor ao seu ajudante. E o mestre pintor o falava com bastante emoção, tanta que denotava doces lembranças de um passado recente na companhia dela, a baixinha, acastanhada, molhada, a quem ansioso agarrava nas horas mortas, no fim de mais um dia de trabalho, durante o fim de semana, etc.
Se perguntasses a quem naquele momento passasse e ouvisse a passagem acima citada, quanto à tal personagem conhecida quando 15, talvez pensasse numa moreninha bem feita. Quero dizer: pele macia, corpo de viola e um rosto tão bem desenhado que evidenciasse a atenção que o Senhor Criador dispensou quando a esculpiu. Afinal, uma das vantagens da colonização foi ter trazido, à Angola, cabo-verdianos que encheram Benguela de lindas morenas. Mas, na verdade (e desculpe a desilusão), não era da “quinzinha” que estavam a falar; ou melhor, falavam duma “quinzinha” que agora já é a “cinquentinha”, mas que antes teve de passar por “trintinha”, uma assim tão popular como as catorzinhas. O que eu penso ser surpreendente é o facto de ela só existir há menos de 5 anos na província de Benguela, mas já ter beijado milhões de lábios de homens e mulheres. Vadia, promíscua… apetitosa.
Não sei se é por ela ser amiga da maioria que a intitularam de “a nº 1”, já que deste número só tem desgraças e estragos. Voltando à conversa dos dois colegas de profissão, o ajudante e o mestre pintor, afinal estavam a referir-se à cuca, cerveja em garrafa fabricada pela Soba-Sociedade de Bebidas de Angola, na vila da Catumbela, produto da BGI.
No Umbundu, a minha língua materna, o som “kuka” tem forte relação com “okukuka”, que significa envelhecer. Será por isso que os miúdos estão a ter corpos de empresários, principalmente na barriga? Caras empapuçadas, mentes cansadas, enfim, será aí que ela nos leva, ao envelhecimento precoce? Poucos pensarão assim, e também p’ra quê chiar muito, se então a nْ 1 é querida por todas as faixas etárias, sem excepção? Atenção, por respeito à ciência, justo seria abrir uma excepção para os bebés… mas como, se até os fetos cucangolam? P’ra quê e quem sou para discordar da realidade?
Ainda volto a reflectir um pouco na passagem da conversa do mestre e o seu ajudante. Para mim, a graça e ao mesmo tempo tristeza reacenderam quando descobri que as palavras do mestre pintor subentendiam uma grande vitória pela perseguição, sem trégua, infligida ao processo de subida de preços da cuca ao longo dos tempos, desde os 15.00 kz até aos actuais 50.00 kz. A célebre frase “o monte é cem”, entenda-se do monte três cervejas, ainda respira em nossas mentes, tanto como respira a conjugação transitiva directa “cucangolo, cucangolas, cucangola, cucangolamos, cucangolais, cucangolam”. A Catumbela, com tantos problemas sociais que tem, a mesma que se cansou de lutar pelo estatuto de município, ascendeu à categoria de “capital provincial… da cerveja”.
A estrada é estreita, o número de carros e o de acidentes crescem na província, particularmente no troço Lobito – Benguela. “Se beberes não conduza, se conduzires não beba”, a velha máxima de estrada é cada vez mais moribunda. Tão bom seria ver isso também numa placa ao lado dos mais de cinco placares publicitários da “nossa” cerveja, bem vistosos ao longo da via, quando não se vê nem sequer uma publicidade fazendo alusão, por exemplo, à epidemia do século VIH/SIDA, ou do tipo “estudar é produzir” (saudosismo à parte) ou “a criança é o garante do amanhã”, ou “democracia é escolher livremente”…
Nós, Angolanos, precisamos nos divertir e entretermo-nos para se ultrapassar as marcas da guerra. Mas quando alguns já querem condicionar as suas capacidades de raciocínio pelos efeitos do álcool, ignorando voluntariamente a necessidade de segurança e de desenvolvimento, hei…alto ali!

Autor: Lofa Kakumba
Adaptação Gociante Patissa,Lobito

quinta-feira, novembro 17, 2005

TRINTA ANOS DE IGREJA EM TRINTA ANOS DE ANGOLA

Misturado aos trinta anos de Angola está a presença da Igreja nos momentos bons e maus por que passam os angolanos. A ânsia pela independência tem o olhar e a mão de pessoas singulares e colectivas da Igreja Católica. Prisões, maus tratos e deportações marcam a história da Igreja antes da independência. Depois desta, e na estrada dos trinta anos de independência, a história está feita de prisões, mortes, destruições, desapropriações, privações, lágrimas, esperanças e de pronunciamentos diante de situações boas e más da vida dos angolanos.
Os pronunciamentos dos Bispos nestes trinta anos de independência são feitos normalmente através de cartas, de mensagens e de notas pastorais nem sempre vistos com bons olhos. Houve quem visse neles uma intromissão, outros quiseram que fossem uma caixa de ressonância dos ressentimentos que nutriam contra o regime vigente no país, outros ainda esperavam que eles manifestassem o pensar de uma sucursal do partido único. No entanto os Bispos fazem sempre questão de lembrar que essa não é missão nem papel da Igreja.
Primeiros dez anos
Os primeiros anos de país são de grande expectativa e de apreensão crescente por parte dos angolanos. A guerra continua, para espanto de todos. O sossego esperado não aparece. A morte e a destruição reinam em Angola e não poupam nada nem ninguém. Nem mesmo a Igreja e os seus missionários.
Os Bispos apreensivos chamam a atenção de governantes e de homens de boa vontade para a necessidade da reconciliação entre todos. “Os angolanos anseiam pela paz a que têm direito, porque não há outra alternativa: ou o extermínio da população, ou a reconciliação da pátria dilacerada” - lembram os Bispos que acrescentam: “a quantos presidem aos destinos deste martirizado povo, ou que de qualquer outro modo interferem na questão da paz da nossa terra, pedimos que façam o melhor que podem para que acabe a guerra e venha a paz e a reconciliação de toda a família angolana”.
Desta fase da história faz parte a primeira reacção governamental, pública, a um pronunciamento da Igreja.
Segunda década
Esta começa com um grito que ao mesmo tempo é uma palavra de ordem e um encorajamento por parte dos Bispos: “Firmes na Esperança”! Comemorando dez anos de independência o retrato do país está bem desenhado na carta pastoral de Fevereiro de 1986: “Nós angolanos, celebramos os dez anos de independência, infelizmente dez anos de armas nas mãos. Como se tanto não bastasse, o espectro da guerra alarga-se cada vez mais, guerra fratricida que vai desgastando o país. Até forças estrangeiras fazem da nossa terra campo de batalha. Somos dizimados física e moralmente. A fina flor da nossa juventude vai tombando na frente dos combates. E muitas vitórias anunciadas são vitórias de morte e destruição.
Nós, porém, repetimos: «a Paz é possível» ”.
A paz na visão dos Bispos, já nessa fase, não só é possível, como é uma exigência. Daí que: “em nome das crianças, em nome dos velhos, em nome dos mutilados, em nome da juventude, cujo futuro até agora foi gravemente hipotecado, em nome de todos os que sofrem os horrores da nossa guerra, pedimos a quantos podem congraçar as partes desavindas – e neste caso poder é dever – que dêem os passos necessários, indispensáveis para o sol auspicioso da paz brilhar na nossa terra”.
Esta é também a fase das primeiras negociações entre o MPLA e a UNITA. Gbadolite, primeiro, e, Bicesse, depois. É a seguir a cimeira de Gbadolite, no ex-Zaíre, e o por ocasião dos catorze anos de Angola que o pronunciamento dos Bispos conhece a segunda reacção oficial, pública, da parte do governo.
Os acordos de paz de Bicesse, bem como as primeiras eleições em Angola merecem vivos aplausos por parte do Episcopado católico: “Felizes os Obreiros da Paz”! Lembra Ele que “… todas as forças são poucas para levantar Angola, a começar pelas vias de comunicação, verdadeiras artérias da sua vida socio-económica. Praza a Deus que lhe não faltem ajudas isentas e bastantes. Quanto a nós Angolanos, todos não somos de mais para tão urgente e patriótica missão. A pátria conta com todos nós”.
Cinco anos de desespero
A segunda metade da década dois de Angola é das mais conturbadas da história. O conflito pós eleitoral é o mais violento de sempre. As esperanças e a boa vontade das pessoas são ignoradas. A apreensão cresce e “A Igreja não pode conformar-se com este estado de frustração e o sofrimento em que o povo se vê novamente imerso. Por isso aqui vimos falar em nome dele, gritando a todos os políticos e responsáveis pelo processo eleitoral de Angola: «Salvai-nos, que perecemos». Trinta dias depois os bispos perguntam: “Uma nova guerra como iria acabar? Com negociações? Com diálogo? Com algum mediador? Então escutem-nos. E com urgência. Aquilo que um dia iriam fazer para a guerra acabar, façam-no já agora para ela não começar”.
A pergunta não é respondida. O apelo não é levado em conta. A situação deteriora-se rapidamente. A fome, a dor, a miséria e a morte graçam pelo país. A ajuda humanitária é muitas vezes condicionada e usada como forma de pressão. As armas falam alto por toda Angola. Contudo a CEAST grita: “Em nome do povo e em nome de Deus, pedimos de todo o coração ao Governo e a UNITA que regressem imediatamente à mesa das conversações, e não venham de lá sem um cessar-fogo assinado que acabe com o inferno desta guerra injustamente imposta ao povo angolano”.
Terceira década
Os acordos de Lusaka marcam a terceira década de vida de Angola. Tal como por ocasião dos de Bicesse, esses acordos foram saudados pelos bispos com alegria e satisfação. Eles lembraram aos políticos e não só, que “o amor à Pátria é uma força poderosa que a torna una e coesa. Mas como pode haver amor à Pátria se não houver amor aos compatriotas? Sem este, a Pátria estaria exposta à sua própria ruína”.
A paz e a tranquilidade de Lusaka duram pouco tempo. A guerra volta ao país. Volta também a destruição. Os Bispos apreensivos lançam um veemente apelo aos homens da guerra e fazem saber que “as motivações da guerra em Angola têm sido qualquer coisa menos o bem dos angolanos”. E acrescentam: “ É impossível amar o povo e fazê-lo sofrer. E quem o não ama não é digno de ser seu governante”.
Os acordos do Luena fecham os anos de guerra em Angola. A preparação para as eleições e os três anos sem guerra devolvem aos poucos a esperança de dias melhores aos Angolanos. Desenvolvimento e progresso é desejo de todos. Vale no entanto recordar a chamada de atenção dos Bispos: “Se queremos construir deveras o futuro da Nação, temos a certeza de que isso jamais será possível sem consciências rectas, sem homens honestos e responsáveis na sua profissão, no seu emprego, no seu cargo, nos seus negócios, na sua vida, já pública já privada. Sem homens desta têmpera, o País não se pode erguer à dignidade que merece”.

Ao longo destes trinta anos, dois pronunciamentos têm resposta imediata da parte do governo de Angola. O primeiro é feito no Lubango. Neste os Bispos reagem ao facto de o Governo e o Partido terem declarado ser o marxismo-leninismo a linha ideológica oficial de Angola. A crítica à religião intensifica-se. A tendência à criar divisão dentro da Igreja e à separar esta da Igreja Universal acentua-se. Na carta pastoral os Bispos aproveitam para elucidar os cristãos e o povo sobre a fraqueza do sistema ideológico escolhido.
A reacção é forte. O editorial do Jornal de Angola de 26.01.1978, traz como título, e a vermelho, “OS BISPOS E A CONSPIRAÇÃO”. Seguem-se uma série de dificuldades para a Igreja. Missionários são impedidos de entrar. A Emissora Católica de Angola é confiscada. Aumenta a pressão sobre trabalhadores e funcionários católicos.
Uma outra reacção pública do governo tem a ver com a mensagem de 11.11. 1989. “Os últimos acontecimentos da história recente dizem-nos que os povos hoje caminham para a Paz, o progresso, a liberdade, a democracia. Um sistema político deste género dignificará a nação angolana, o seu povo e os seus chefes.
Não queiramos para Angola caminho diferente”.
A direcção nacional para os assuntos religiosos repudia a mensagem e taxa-a de panfleto clerical. “O documento subscrito pelos “Bispos Católicos de Angola” procura torná-los intérpretes “do povo sofredor” de Angola.
Mandatos desta natureza estão regulamentados por instrumentos jurídicos estabelecidos pelos direitos e deveres dos cidadãos, consubstanciados na lei constitucional a que todo o povo deve obediência incluindo “os Bispos Católicos de Angola”.”
Na mesma edição do Jornal de Angola, o jornal comenta a mensagem sob o título: «A DEUS O QUE É DE DEUS». Eis, um extracto do comentário: “Os bispos católicos e os fiéis da sua igreja têm outros meios e lugares próprios para buscarem a paz que dizem desejar, sem terem a pretensão de dar conselhos a quem deles não necessita, ou de se substituírem ao estado em que se integram. “A César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.”

Samy de Jesus, Jornalista da Rádio Benguela

«A UNITA NÃO SE ADAPTA A CIDADE»

O título é tirado de um artigo de opinião do jornalista e escritor angolano, José Eduardo Agualusa, publicado em finais de 1992,na revista portuguesa de "Política Internacional", a seguir ao massacre de Luanda e na eminência da guerra pós-eleitoral. O artigo propunha-se compreender a lógica do conflito angolano a partir da politização da etnicidade e, ao mesmo tempo, um esforço de paz do autor.
No essencial, sendo um artigo descritivo, Agualusa limita-se a expor aquilo que são as suas percepções sobre as causas da guerra, desde 1975. Subjaz ao seu argumento a teoria essencialista da etnicidade, que admite ser a etnia algo essencial, i.e.,co-natural e inalterável. Esta teoria impede-o de olhar para o lado dinâmico da etnicidade, captável pela teoria instrumentalista. Com uma terceira via, i.e., a junção das duas abordagens, conseguiria captar os lados estáticos e dinâmicos da etnicidade e, muito provavelmente, as suas conclusões seriam outras e muitos mais aplicáveis.
A par do lado mais teórico, o artigo peca por defeito ao não considerar as contradições das elites dos movimentos de libertação nacional como prolongamento daquelas da sociedade angolana colonial, com a sua esclerose de classificação: brancos, assimilados de facto e por escolaridade e os indígenas... Também não capta a intensidade diversificada do colonialismo de região para região.
Posto isso, é importante dizer o seguinte: as contradições entre as leites angolanas não eram, necessáriamente, inconciliáveis. Mas no contexto da luta armada era algo difícil de superar, por uma razão que nos parece óbvia: as elites luandenses, bem ou mal, estavam habituadas a conviver entre os três grupos com dificuldades razoáveis; as elites bakongo olhavam para aquelas como prolongamento do colono, que os espolheu das suas terras e o obrigou-os a um exílio forçado; as elites do planalto, consciencializadas da sua situação de opressão e exploração pela educação protestante,olhavam para as elites luandenses como prolongamento daqueles que levavam os seus para as roças do norte (=k'ondalatu).
A UNITA surge em 1966, numa altura em que FNLA e MPLA disputavam a primazia da representação da luta de libertação nacional angolana. Saídos da FNLA, os líderes da UNITA não terão ficado indiferentes ao resultado do 15 de Março de 1961, quando camponeses Ovimbundu foram barbaramente mortos pelas duas partes:UPA/FNLA e tropas coloniais. Estava assim instalada a dificuldade de coabitação com a FNLA.
A opção de entrada pelo leste, pensamos estar ligada a proximidade com o Congo-Belga, de onde vinham; com a independência da Zâmbia e boas relações com Kaunda; com a presença pouco intensa dos colonos nas terras do fim do mundo; e, sobretudo, disputar um espaço de luta aberto, já que a FNLA gozava de uma hegemonia na zona norte.
Vamos dar um salto para 1974-75, por razões de economia de tempo e espaço. Quanto a penetração na cidade, depois do 25 de Abril de 1974, é obvio que cada um dos movimentos contou com os trunfos que tinha na mão: a sua composição e o conhecimento dos lugares. Sendo os dirigentes do MPLA, esmagadoramente, provenientes de Luanda e conhecedores do meio, tinham supremacia de afirmação em relação aos outros. Os dirigentes da UNITA, esmagadoramente, provenientes das regiões do planalto central,fizeram o lógico:implantar-se nas cidades do Huambo, Benguela e Bié, já que tinham membros dessas zonas. Na disputa de Luanda, a UNITA estava em desvantagem por não conhecer o meio e, para ajudar a festa, foi apoiada pela África do Sul do Apartheid, regime abominado em África.( Talvez aqui o «pecado» seja a homegeneidade étnica). A FNLA tentou disputar a capital, mas tinha a desvantagem dos seus homens que, por razões óbvias, não dominavam ou não falavam mesmo o português e, para ajudar a festa foi apoiada pelos zairenses de Mobuto, regime detestado na região.
Num contexto em que quem tem a capital ganha a luta, o MPLA tinha tudo ao seu alcance para ser o «primo inter pares». Com a incapacidade de conviverem e partilharem os ganhos da luta, só restava o que conhecemos: afastar os outros da capital.Chega-se,assim, ao que interessa: a UNITA recua para o Huambo, donde é corrida, restando-lhe, mais uma vez a mata para sua sobrevivência, enquanto a FNLA regressa a procedência e desaparece.
Volto ao princípio dessa nossa conversa: há uma incapacidade congénita da UNITA em adaptar-se à cidade ou as circunstâncias da luta de libertação e depois de sobrevivência empurraram-na para a mata, donde conseguiu reerguer-se? A mata foi uma opção ou consequência do desenrolar dos acontecimentos? O presente da UNITA, i.e., os últimos três anos, mostram que ela é capaz de viver na cidade(=Luanda), basta que tenha tempo e oportunidade para se socializar. Aliás, Huambo e Benguela/Lobito são cidades, por sinal segunda, terceira e quarta de Angola.
Termino com o leitor que teve paciência de nos acompanhar e, certamente, dirá: qual é a tua agora? O que pretendes? Queres negar que os maninhos são uns gajos da mata ou inadaptáveis à cidade? Ou apenas perder tempo e dar largas à tua imaginação e mostrares um pouco da tua lata? A resposta é simples: trazer para debate ideias feitas ou «verdades auto-evidentes» que analisadas com algum rigor e desapaixonadamente, embora com dose de subjectividade própria das ciências sociais, podemos apurar e afinar as nossas percepções. Também estamos certos de que os leitores não estão esquecidos da finalidade deste espaço:debate!!! ndanda

Upindi Pacatolo

quarta-feira, novembro 02, 2005

NUMA ALDEIA PERTO D'AQUI

HÁ DOIS ANOS QUE O POVO LUTA

Para lá do asfalto, a menos de 95 quilómetros dos Hummer’s, dos Jeeps Vx, dos Toyotas Rav4, um pouco distante dos concursos de “Miss”, existe uma “Ombala” chamada Tchiaia. Quase perdida em arbustos, fica a quarenta minutos a pé no sentido leste da via do Samboto. É a sede de cinco aldeias, nomeadamente, Pedreira, Kandongo, Samangula, Kawio e Tchiaia, todas elas pertencentes à comuna do Sambo, município do Tchikala Tcholohanga, província do Huambo. Lá onde os telemóveis são só brinquedos dos adultos visitantes, onde a energia eléctrica só está na memória de alguns que conhecem, quando muito, a sede da comuna, as crianças têm um sonho: o de receberem enxadas e sementes para sustentarem suas famílias.
A aldeia ressurgiu há dois anos e carece de quase tudo: desde à alimentação, serviços básicos de saúde, acesso à educação e ensino, até ao apoio na actividade agrícola – a principal fonte para o auto-sustento. Entre os populares, há os retornados da Zâmbia, alguns são viúvos, outros velhos incapacitados e boa parte das crianças é órfã. O apoio do PAM terminou em Maio último enquanto que as últimas chuvas com granizo destruíram as plantações. Hoje, o sustento das famílias, cuja dieta forçada é a batata-doce, é uma responsabilidade partilhada com a própria criança logo que completa 11 anos. Vive-se do cultivo e do fabrico de carvão. O ganho diário pelo biscate no campo é 200 Kz por adulto e 150 Kz quando se é mais jovem; já no carvão, uma criança pode fabricar até cinco sacos de cada vez. “Mete-nos até vergonha ter de pedir ajuda, nós que sempre fomos um povo trabalhador”, desabafou um adulto.
Desde cedo, as crianças dominam a auto-medicação usando raízes silvestres. É a alternativa face à inexistência de um posto de saúde e à escassez de dinheiro para pagar um enfermeiro particular pelo tratamento. “Quase todos os recém-nascidos faleceram este ano, só na sede da Ombala. Até agora, o número total é de 17 óbitos, dos zero aos 2 anos e meio”, revelaram alguns líderes da comunidade. A fonte de água para o consumo é um dilema: todo o mundo sabe que é antiga e tem bichos, incluindo cobras, mas não existe outra alternativa.
A única escola foi construída por uma ONG, em 1996, e a sua cobertura foi saqueada durante o conflito armado. Nela, três professores atendem 300 crianças, da iniciação à segunda classe, sendo parte considerável dos alunos maiores de 14 anos. Os que passam para a 3ª classe enfrentam sete quilómetros a pé para chegarem à escola na sede da comuna de Sambo.
O consumo excessivo do kaporroto, aguardente produzido localmente, é companhia dos adultos às tardes, distraindo uns e fazendo brigar outros. Bebe-se mais do que se come. Pelas manhãs, o movimento das crianças divide-se em dois galhos: umas indo à lavra, outras para a escola. Destinos diferentes, mas algo em comum: todas cheias de feridas de bitacaias e suas roupas de tão sujas e rotas (na vida real) até parecem indumentárias de teatro comunitário.
Se o Mpla é o único partido na zona, a igreja católica ganha concorrente, a adventista, que já tem um fiel dedicado (a aldeia tem mais de 200 homens). Mas a última campanha de evangelização dos adventistas provenientes do Huambo, durante um fim-de-semana, deu mais pontos aos católicos, de si já líderes das simpatias em função de alguma caridade recente aos órfãos e vulneráveis: tudo porque, no culto, um visitante terá dito que “os irmãos que adoram no domingo, adoram no mesmo dia que os palhaços”, o que ofendeu até as autoridades locais. Nos finais de semana o futebol é rei, sem técnica, táctica e onde ninguém sabe perder; mas vale a intenção: “assim as crianças se distraem das makas da guerra… e nós também”.
“Kwachas” e “MPLosos” de ontem, angolanos unidos hoje pela paz, há dois anos que lutam pela sobrevivência, pelo direito de recomeçar a vida em Tchiaia, sua aldeia do coração. Qualquer apoio é para ontem e aqui fica o SOS. Para além do governo de Angola, quem será o rico, o político, o amigo ou filho do Huambo que pode ajudar esse povo?

Gociante Patissa, Huambo, 30 de Outubro de 2005

segunda-feira, outubro 17, 2005

O IMAGINÁRIO DAS NOSSAS PATRÍCIAS!!!

Vou tentar ser o mais fiel possível e descrever-vos o que presenciei. Não é novidade para quem vive em Lisboa e tem olhos para ver e ouvidos para ouvir. Vinha eu no metro, em direcção ao Rato, perdido nos meus pensamentos, o que é normal quando não tenho um livro, revista ou artigo para ler, ou estou, simplesmente, sem disposição para tal.
Entre sentar e não sentar, decidi-me sentar, assim que o metro ficou descongestionado na estação de Entrecampos. Sem querer, o lugar vazio era ao lado de uma patrícia que trazia o filho no colo. Pelo rosto e fisionomia, a patrícia aparentava estar na casa dos vinte e tais ou trinta e poucos.
Na estação do Marquês de Pombal, entra uma outra patrícia que, reconhecendo a primeira, senta-se junto a ela e começa a conversa habitual. Procura saber como a outra está, o trabalho, os miúdos... Nesse entretanto, a primeira começa a lamentar a atitude do filho, porque é bastante lento, o que lhe faz chegar atrasada em quase tudo, porque tem que deixá-lo na escola. « Fogo! Aquele miúdo é muito lento. Tenho muita pena dele, porque quando crescer, com essa lentidão, não conseguirá trabalhar nas obras. Será um desempregado».
Prontamente a outra ripostou:« Epa não! Tas a gozar ou quê? Ele não vai trabalhar na obra coisíssima nenhuma. Então fartaste de trabalhar na limpeza e cafés e o teu marido nas obras para quê? Metes o teu filho na escola para quê? Todo esse esforço e sacrifício é pa ele continuar nas obras? Nada disso! Ele será doutor!»
Apesar do percurso entre o Marquês de Pombal ao Rato ser demasiadamente curto, esse é um daqueles momentos que nos apetece continuar a viagem e seguir o diálogo para meter uma colherinha de açucar. Mesmo assim, não perdi a oportunidade de dizer uma palavra, quando já íamos a subir as escadas: « sim senhora, apoiado. Ele não vai as obras! Nem sequer precisa, basta estudar!»
Continuei o meu percurso, enquanto a conversa das duas ia ficando distante. Sozinho continuei a falar. Pus-me a reflectir na conversa e no disparate que tinha dito. Na verdade, se o puto não estudar e não tiver estímulo para o fazer e se os pais estiverem determinados em ficar aqui( leia-se Portugal), a porta que se lhe abrirá é a das obras. Aqui precisa-se de gente forte e dispachada.
Com uma família cujo background é como o que estámos a descrever, os filhos precisam de muita sorte, força de vontade e uma benção especial para romperem esse círculo vicioso, que os espurra para o desânimo e reprodução do status social dos pais. Uma mãe assim,sem exemplos de sucesso, tende a transmitir aos filhos aquilo que é o seu mundo: ir as obras e ganhar dinheiro, por isso não precisa perder tempo com os estudos. Ou seja, pode ser lento e até desleixado com a escola, mas não pode sê-lo em relação as obras, porque senão tá feito.
Por outro lado, consola-me perceber, a partir da outra, que há gente desse mesmo meio, que pensa diferente, isto é, esforça-se, para que os filhos tenham melhores oportunidades e estejam preparados para as aproveitar. É muito reconfortante ouvir isso. Assim, o meu apoio tanto com a cabeça, quanto com as palavras que disse,faz todo sentido. Temos direito de aspirar pelo melhor e não importa a nossa origem. É preciso pensar que os nossos filhos merecem melhor futuro que nós, por isso todo esforço em prol desse futuro é bem vindo.
Força gente lutadora. É preciso romper as amarras do passado e ir pa frente. Salvemos as gerações futuras. Parabéns àqueles que exercitam o seu direito de pensar/sonhar alto e diferente.
Qualquer coincidência com a ficção, é a mais pura verdade.

Upindi Pacatolo

sábado, outubro 08, 2005

AÍ! COMO DÓI!!!

Aí! Como dói??!!! Assim exprimiu-se Walter Ananás "Tchifuto Mbungu", numa das suas músicas, relatando o dia-a-dia dos Angolanos. É uma maneira belíssima de começar essa nossa reflexão.
Todo indivíduo interessado em questões Africanas e amante do melhor que África já produziu, certamente conhece ou já ouviu falar do celebérrimo testamento de Nelson Mandela "I am prepared to die"( Nelson Mandela, Rivonia Trial, Pretoria Supreme Court, 20 de Abril de 1964... disponível nas obras "Long walk to freedom" e "From Freedom to the Future"). Esse testamento, lido em 4horas, há 41 anos, podera apenas figurar nos arquivos do passado sinistro do Apartheid.
Infelizmente, muitas das injustiças que levaram Mandela a lutar contra o sistema, continuam a fazer parte do dia-a-dia da maior parte dos Angolanos. O mais disconcertante é que são Angolanos a infrigir e condenar outros Angolanos à situações de indigna humanidade, levando alguns mais velhos a preferir o tempo colonial ( Cf. Justino Handaga "Akulu valivela kaputo").
É difícil resistir à tentação de traduzir o Testamento de Mandela para esta página porque encaixa perfeitamente na situação actual de Angola, bastando para o efeito substituir os valores estatísticos - no que toca à escolarização -; as palavras White, Black, National Party, African National Congress, South Africa e as datas por realidades correspondentes em Angola e, pronto, temos tema de conversa.
Na secção que designámos por "Extremes and remarkable contrasts", lê-se: "A África do Sul é o país riquíssimo de África, e pode ser um dos mais ricos do mundo. Mas é o país de grandes extremos e contrastes. Os brancos disfrutam o que pode bem ser o elevadíssimo standard de vida no mundo, enquanto os Africanos( leia-se negros) vivem na pobreza e miséria..." Mandela vai descrevendo as condições de vida desumanas dos Africanos/negros, desde a habitação, emprego... até à escolaridade, para no fim sugerir duas possíveis formas que podem corrigir o quadro sombrio. "Há duas maneiras para combater a pobreza. A primeira é a educação formal e, a segunda dar oportunidade aos trabalhadores para aumentar os seus conhecimentos e melhorar os seus rendimentos..."
Justino Handanga, o músico que está na moda em muitas cidades de Angola, ajuda-nos a interpretar o testamento de Mandela para a nossa realidade. Na sua música, "Twatekateka", retrata a vida dos mutilados de guerra, que lutaram pelo país, nas várias guerras que tivemos, e hoje estão reduzidos a mendigos para poderem sobreviver. O que mais dói é perceber que estão privados até do direito de ter filhos, porque " okutchita ndukusole, pole katchitava momo ku Suku ekandu...nda otala hale ohali kukanene ukwene k'ilu ly'eve"( para quem passa necessidades básicas é desumano ter filhos para condená-los à mesma realidade ou pior).
Já na música "Valivela kaputo", fala do sentimento partilhado pela grande maioria dos mais velhos sem esperança, porque os filhos passam o dia a apanhar migalhas em vez de ir à escola; os pais dedicam-se ao corte de lenha e queima do carvão para garantir algum sustento, mas quando o corpo não obedece de tantas dores, então a fome aperta em casa... quando as crianças estão doentes, os hospitais não possuem remédios... No meio desse marasmo de indignidades e desumanidades os mais velhos preferem a época colonial!!!!!!!!!
O que mais me cansa e aborrece é quando me apresento como Angolano e os meus interlocutores ripostam: "Angola é um grande país e muito rico!!!" Imediatamente corrijo a situação com o nosso "infelizmente", o que os deixa um pouco ou muito disconfortáveis. A razão é simples: o nosso maior drama é termos um país podre de riquezas naturais e que leva os nossos dirigentes e parceiros a esquecer a maior riqueza: o POVO ANGOLANO!!!!!!! Este sim, conseguiu independência política há 30 anos!Mas para que serve uma independência privada de direitos básicos e fundamentais e, para agravar condena a grande maioria do povo a vegetar indigna e desumanamente.
Os nossos contrastes falam por si: uma dúzia de irmãos vive exageradamente na maior abaundância, enquanto a grande maioria vegeta na pior indigência; uma dúzia frequenta as melhores escolas com bolsas e apoios chorudos, enquanto a grande maioria está condenada a frequentar aulas debaixo de árvores sentada em latas de leite em pó, quando havia, agora que é luxo... uma dúzia faz do luxo seu lixo, enquanto a grande maioria faz do lixo seu luxo, disputa comida com os cães!!!!!!!!
É para irmãos negarem dignidade e direitos fundamentais à irmãos que lutámos pela nossa independência??? Para irmãos condenarem os outros a um eterno fracasso, reproduzindo o sistema social???

Upindi Pacatolo

terça-feira, outubro 04, 2005

VOLTEI AO NAMIBE II

Um outro choque desta vez tinha a ver com a noção de raridade do cartão postal da cidade. Ao visitar o deserto (de Calahari que se estende ate Africa do Sul) constatamos que, afinal de contas, o sentido de raridade da welvitchia mirabilis está no facto de apenas existir no deserto do Namibe, mas não significa que exista um só pé. “Quem vai ao Tombwa vê montes e montes, umas grandes e outras pequenas”, enfatizou o guia auxiliar, Salvador Francisco. E, ao contrário do que julgava, a discussão no primeiro dia em volta do bom estado de conservação das estradas não se havia esgotado. Já de regresso ao parque de campismo, um toque no meu ombro esquerdo chamou-me a atenção e quando atendi me foi “enfiada” a pergunta:
– Do aeroporto a cidade viste algum ponteco, algum túnel sob a estrada?
– Não! Respondi-lhe sem hesitar.
– Pois – continuou – não há ravina nem nada. Isso tudo contribui para o bom estado das estradas…!

Quando chegamos no estádio Joaquim Morais, por volta das 11:30 horas, decorria mais uma sessão de treinos, orientada por Romeu Filemon, antigo preparador físico da Académica Petróleos Clube do Lobito nos anos 1999-2000. E não era tudo, três atletas usavam camisolas que um dia foram equipamento oficial do Clube do Buraco. As condições do campo Joaquim Morais indignaram os excursionistas, que chegaram a dar razão àqueles que abandonaram o Sonangol do Namibe. Destes, referenciou-se Hugo, um dos goleadores destacados do girabola. O quintal de adobes vai se “esfarelando” a cada dia, muro partido várias vezes, enfim uma sensação de que o estádio está votado ao abandono apodera-se de quem aí se desloca pela primeira vez, tudo a contrastar com a saúde excelente do relvado.

A TPA funciona no 5º piso do edifício mais alto da cidade do Namibe e que tem, curiosamente, apenas 5 andares. A Delegação local, acredite-se, tem feito esforços, mas carece de investimento para se ajustar ao ritmo das principais províncias de Angola, devido a sua dimensão turística e económica. É normal que não seja ainda um centro de produção, mas que até ao momento o sinal do canal 2 da TPA ainda não esteja disponível… é grave. “Se você quer ver Canal 2 tem de ir aos matos, lá nas administrações comunais e municipais onde tem parabólica”, desabafou um munícipe. Não é de admirar que em alguns pontos da cidade haja mais antenas parabólicas de Tv’s estrangeiras do que árvores. E mais grave ainda é estar bem estampado na “testa” do edifício, e eu cito, “Televisão Popular de Angola”, em pleno ano 2005, quando já vão quase 10 anos que, de popular, a nossa TV passou à Pública de Angola.

Aproximando-se a uma residência azul, o autocarro afrouxou a velocidade até estacionar num parque improvisado defronte. “Aqui é o hotel dos que cometem crime”, dizia simpático o guia principal. O autocarro reagiu com gargalhadas à piada oportuna, enquanto os olhos focaram-se nas instalações da Comarca, situada no bairro do Platon, um pouco fora da cidade (talvez por uma questão de coerência, já que se quer o crime cada vez mais distante possível). “Reeducar não é tarefa fácil…”, lia-se num letreiro à entrada. Instantes depois retomou-se a marcha em direcção a praia azul, nas escadinhas, a zona de preferência dos banhistas geralmente vindos do Lubango. Os nomes “Praia azul” e “Escadinha” faziam lembrar algo bem familiar: a Baia Azul e a Caotinha, em Benguela. Para além do “azul” e da rima em “inha”, ambas têm muito em comum com as “nossas”. Tratam-se de praias limpas. E quando digo limpa sei do que estou a falar (pelo menos ninguém viu no chão camisinhas – usadas por amor ao amor ou ao dinheiro – cheias “daquilo”, como facilmente acharíamos no Lobito, de meio em meio metro, na parte oeste da ponta da Restinga!). Mas a área “das Escadinhas” em particular “perde por goleada” comparativamente a Caotinha. Isolando todas as outras potencialidades desta última, a praia do Namibe, também considerada discoteca móvel, apenas tem um restaurante, para além de que quase não há táxis para facilitar os banhistas “órfãos” de carro. Mas, enfim, aprendi que Namibe é um daqueles casos cuja potencialidade não se avalia por comparações, mas, sim, pela dimensão das almas dos seus habitantes.

As instalações do Banco Africano de Investimento (BAI) dão um reflexo de luxo na rua onde se situa o Concelho provincial da Juventude que, diga-se em abono da verdade, não fica a dever muito em termos de aparência. O irónico é que o movimento associativo é nulo; questionei cinco pessoas, todas bem posicionadas até, e nenhuma sabia da existência de ONG’s e associações voluntárias nacionais, excepto no município da Bibala onde intervêm ONG’s da vizinha província da Huila. Quanto à beleza do BAI, razões há que bastam: por um lado se trata da casa dos dinheiros, que deve manter-se maquilhada para atrair clientes, mas, por outro, havia sido inaugurada em menos de duas semanas.

A abertura oficial do Festival, na manhã de 2ª feira, 11 de Abril, foi marcada por discursos do Director Provincial da Juventude e Desportos, Pedro Mussungo, e do governador provincial em exercício, António Correia. Pedro Mussungo teve o discurso mais objectivo que já ouvi de um político/governante – sem sofismas nem cara-de-pau – parecendo mais um texto jornalístico. Danças tradicionais e músicas ao vivo abrilhantaram o palco. Uma dessas músicas tinha o sopro do mar e o sabor do ananás, talvez por ser cantada por Cândido Ananás, filho da Terra, e referir-se às belezas naturais de Angola. As actividades enquadradas no Festival Jovem Namibe/05, resumem-se em: produtivas, lúdicas, culturais e recreativas, desportivas e de investigação. É uma iniciativa do Governo provincial do Namibe, através do Ministério da Juventude e Desportos, com parceria do Concelho Provincial da Juventude. Sob o lema “Angola 30 Anos, Juventude Clamemos Pela Pátria”, enalteceu valores como a solidariedade e promoveu a troca de experiência entre os 300 delegados das províncias de Benguela, Huila e província anfitriã, que se representou pelos cinco municípios, nomeadamente, Camucuio, Virei, Tombwa, Bibala e Namibe. Fiz amigos dentro e fora de Benguela. Mas tive a oportunidade de descobrir alguém que é o Namibe em pessoa: Pequena de corpo, mas com uma alma de grande dimensão; aparentemente fria e fechada, mas inteligente, doce, rica e solidária como o mar, abundante como as estrelas intocáveis, enfim, alguém com quem se precisa conviver para melhor conhecer.

Na visita ao Tombwa, saltou à vista o Centro Integrado de Emprego e Formação Profissional que administra desde os cursos mais técnicos aos administrativos, por 900 kwanzas mês, uma iniciativa que deveria servir de exemplo para as restantes províncias do país. O receio de muitos é formar-se e não ter emprego, devido a falta de políticas tendentes ao primeiro emprego, e principalmente ao elevado número de indústrias abandonadas no país. Um desses exemplos é o antigo Porto Mineiro de Moçâmedes (PMM), o 3º maior porto de Africa, segundo Pedro Mussungo, que servia para o carregamento de minério para a Ásia (China e Japão) e que faliu pouco depois da independência. Enquanto visitávamos o PMM, uma comissão chinesa se fazia ao local, possivelmente para identificar potencialidades e necessidades do monstro adormecido. “Não é a primeira delegação”, garantiu Pedro Mussungo, o guia sénior, que no entanto não acredita num eventual ressurgimento do PMM dentro de dois anos.

Muitos namibenses têm no mar o seu cordão umbilical, tanto é que um dos bairros da Comuna de Forte Santa Rita se chama “Saco-Mar”, por situar-se na reentrança causada pelo acasalamento do rio Giraúl com o mar. Mas atraiu-nos um velho concertador de redes de pesca, sentado na areia e mergulhado profundamente no pensamento, a escassos metros do Parque de Campismo, com quem Filipe e eu travamos um dedo de prosa. Natural da Baia das Pipas, 36 km, cose redes desde 1975, profissão que aprendeu com um padrinho, quando aos 20 anos terminou a tropa colonial sem formação académica que lhe desse um emprego no escritório. A linha e a agulha com que cosia “vêem mesmo da fábrica, no Lobito ou em Benguela”. Ganha honestamente setecentos kwanzas por dia, e enquanto não terminar o biscate não tira folga nem mesmo para almoçar. A poucos metros, um senhor mestiço de caixa de óculos aguardava ansioso pela conclusão da obra. “Essa rede é para pescar no rio Kunene”, disse o velho.

Inicialmente marcado para domingo, 17 de Abril, o regresso da caravana veio sofrer sucessivos adiamentos, e só aconteceu na tarde de 5ª e manhã de 6ª feira, respectivamente, para a insatisfação dos delegados. Sob instruções, nalgumas vezes incoerentes, via telefone, ia-se mais de duas vezes por dia ao aeroporto, quando não fosse o caso de ficar lá todo o dia no autocarro e voltar à tardinha para o Campismo “vazio e frio”. Por mais patriotas que fossemos, ficar sem almoçar de domingo até 5ª feira, numa altura em que já se havia esgotado o subsídio de ajudas de custo, soava humanamente a abandono institucional. Mais ainda, numa altura em que alguns delegados precisavam voltar para os seus locais de trabalho, escolas, outros deviam regularizar sua situação militar, participar de concursos públicos para a função pública e ainda aqueles que tinham algum familiar doente. Em consequência um delegado regressou de táxi e um outro de voo da Air Gemini, ambos por meios próprios. Talvez fosse esse o grande teste das entrelinhas do lema: “Angola 30 anos, Juventude Clamemos pela Pátria”. Infelizmente, não consegui chegar ao Bentiaba (ex-São Nicolau), onde meu avô foi preso de 1961-1966, acusado de “Turra”. Mas tenho uma certeza: O regresso ao Namibe me permitiu corrigir a perspectiva anterior. Mesmo que nunca mais volte lá, Namibe será sempre a segunda província de meu coração.

Gociante Patissa,
Activista de Educação Cívica e Direitos Humanos e Radialista Amador
Bairro da Santa-Cruz, Lobito, Caixa postal 208-Catumbela

sexta-feira, setembro 30, 2005

RASGOS DA VIAGEM!

Aos 30 dias do mês de Junho, deixamos o aeroporto da Portela-Lisboa rumo à South Africa, passando por Luanda. Depois de 3 anos na Tuga, habituados a alguma eficiência e funcionalidade do sistema, não estávamos preparados para aceitar a burocracia e/ou quase inexistência de eficiência dos nossos serviços. Tivemos a opção de viajar pela nossa TAAG, motivados pela máxima " é nacional, é bom, tem qualidade e eu gosto!".
Para começar, quando se entra no avião da TAAG, os lugares para bagagem de mão já estão lotados. Então a solução passa por viajar com a bagagem de mão junto dos pés ou, com um pouco de sorte no banco ao lado, porque o passageiro desistiu da viagem ou por outra razão... Mas deixemos a TAAG para próximos "RASGOS".
É deveras inexplicável e algo frustrante quando se deixa o avião, entra-se no autocarro em direcção à sala de controlo dos Serviços da Emigração e Fronteiras. Quem por lá já passou tem alguma ideia. Quando o agente não vai com a sua cara pode demorar cinco ou mais minutos com o seu passaporte ( o que é incompreensível... mas pronto...). A dificuldade maior prende-se com o azar de ter que esperar hora e meia para recolher a bagagem e, se nos damos ao trabalho de levantar a cabeça para o tecto admirano-nos a ausência de estuque sinal de obras em curso ou inacabadas, porque os tubos e fios de canalização estão à vista.
Depois de desesperar pela bagagem começa a procissão de saída: bilhete para identificar a bagagem 1º posto; alfândega para saber o que trazemos 2º posto ( que nos pode levar 10 minutos ou mais...). Finalmente, aguarda-nos o baile do transporte e do trânsito...(voltaremos)

Upindi Pacatolo

sábado, junho 25, 2005

VOLTEI AO NAMIBE, AMEI O NAMIBE

(Iª PARTE)
Sábado, 9 de Abril, acordei com mais certeza ainda de que queria mesmo viajar. Acordei apaixonado pelas minhas lembranças, pela vontade de pesquisar, apaixonado por uma pátria agora sem guerra e que oferece, à medida de cada bolso, a possibilidade de ser palmilhada de lês a lês, enquanto o vírus marburg não nos levar a vida. Fazer turismo é finalmente algo que passei a amar cada vez mais. E essa viagem tinha a vantagem de ter as despesas com avião e alojamento pagas pelo Estado, por ser uma saída à convite do Ministério da Juventude e Desportos para representar a província de Benguela na 2ª edição do Festival Jovem Namibe 2005, sob o lema: “Angola 30 Anos, Juventude Clamemos pela Pátria”, de 11 a 16 de Abril. A ansiedade se reforçava ainda mais, pelo facto de já ter estado só por algumas horas no Namibe. Se para muitos “recordar é viver”, para outros “recordar é sofrer duas vezes”. Para mim seriam as duas coisas, embora só estando Namibe teria a certeza.

Vinte elementos compunham a delegação de Benguela, quando o voo apenas tinha capacidade de levar catorze. Logo, dez delegados partiram na primeira caravana, às 10:40 horas, para o voo buscar os restantes às 13:30 horas. Tínhamos a missão de melhorar ou, no mínimo, manter a prestação da equipa que participou da edição anterior do Festival no ano passado. No aeroporto, onde cada delegado recebeu 4 mil e trezentos kwanzas para ajudas de custo, eu dançava e contava gracinhas, mantive o entusiasmo, mesmo depois de perder o telemóvel. Quem ficou abalado foi o Filipe, meu companheiro de viagem, que só voltou a sorrir com o reaparecimento do telemóvel.

Do ar observava a obra da natureza. À medida que o avião avançava, o verde dava lugar ao castanho, solidariamente a vegetação dava lugar ao deserto; era a passagem de Benguela para o Namibe. Ironicamente, os rios que nessa época estão com o caudal sempre alto, pareciam pequenos fios de água movente acastanhada, que contornando serras seguiam fielmente seu destino: o mar. A larga extensão de deserto arenoso nalguns momentos tinha tanta paz e magia que parecia um lençol encarnado sobre uma cama onde dentro de instantes um casal apaixonado estaria a fazer amor, com doses repetidas de orgasmo. Em uma hora e meia de voo tem-se a ilusão de ser a terra tão pura, tão inofensiva…

O grupo voltou a juntar-se às 15 horas e foi “recebido por um funji com calulu e feijão de óleo de palma”, no Parque de Campismo Raul de Sousa Júnior, à beira-mar plantado, na marginal do Namibe. Que espectáculo é a marginal, onde os homens construíram bancos com palas de sombra feitos de betão para tantos e vários proveitos! (Namorar seria um deles, ler, meditar…) Completavam a paisagem, num perímetro de 1,5 km, cerca de 96 roulotes montadas no quadro das festas do mar, com diferentes nomes, incluindo “família Payhama”. No pequeno receptor soava o programa “Rádio Jovem”, da Rádio Namibe. Um dos colaboradores do Rádio Jovem em Luanda interveio por telefone. Tratava-se de Moisés Luís, apresentador do “Revista Musical” da Televisão Pública de Angola (TPA). A conversa girava em torno da participação pouco frutífera dos músicos e artistas angolanos no Award (gala de premiação) da Chanel-O, televisão Sul-africana; ainda no programa, a jovem cantora Yola Araújo em directo e via telefone apresentava a alma do seu mais recente trabalho discográfico “Um pouco diferente”, e não escapou à algumas perguntas “atrevidas” do locutor.

A tarde de sábado e o domingo serviram para nos acomodarmos ao clima e às tendas onde nos alojamos, mas também para observar parcialmente alguns pontos de referência da cidade. Três guias e um autocarro foram postos à disposição dos benguelenses. O curioso é que, excepto a moça, os outros dois guias também não são naturais do Namibe; um é da província de Malange e o outro do Zaire. Minha paixão pela cidade e pela natureza crescia progressivamente por cada surpresa e pela hospitalidade. Meus olhos seguiam instintivamente o movimento das ruas, o dançar do mar, a vaidade do vento, o sorrir de cada rosto e, não sendo crime, o balançar de algumas bundas… Enfim, agradava a ideia de estar de volta no Namibe, dois anos após a última vez, em Agosto de 2003. Mas logo fiquei chocado, enquanto de autocarro girávamos pela da cidade: o mercado informal, vulgo praça do Mandume, já não existe. Aquela moldura humana e o movimento de compra e venda no espaço à entrada, bem nas costelas da cidade, perto da Pensão das Organizações Kilembeketa, a praça que para sempre guardarei na memória, hoje deu lugar à monotonia. Transformou-se numa pálida paragem de táxis internos e para o Lubango. “O terreno foi recebido pelo dono. A praça agora fica no Cinco”, justificou a moça do protocolo, que servia de guia para os delegados de Benguela. Mal sabia ela que mais do que uma praça se havia mexido com o meu passado…!

Porquê 5 de Abril? Se calhar deram ao novo bairro o nome de 25 de Abril, dia revolução pela libertação das colónias portuguesas! Parecia consensual entre os excursionistas, até o guia principal e o motorista nos contarem, pouco depois, a origem do bairro e significado do nome “Cinco”. É que no dia 5 de Abril de 2002, o bairro “Nação” foi drasticamente assolado pelas cheias do rio, resultando em danos materiais consideráveis e alguns mortos; tão grave assim que o bairro foi extinto e os moradores tiveram de ser instalados em terreno baldio fora da cidade, no sentido leste, onde ergueram suas residências com um ordenamento do Governo. Os “heróis” baptizaram o novo bairro de “5 de Abril”, como um marco eterno daqueles que sobreviveram da catástrofe e/ou daqueles “oportunistas” que passaram a ter um pedaço para construir. “Muitos desses que viviam nas garagens e nos anexos aqui na cidade, vieram a correr para ganhar um pouco de terreno para construir”, lembrou o motorista. Lá diz o velho adágio umbundu: “pu’ungunda ukuanjeke opo pekuto li’ukuavipepe” (desgraça de uns, felicidade para outros).

Deixando o 5 de Abril e de volta no centro urbano, mesmo com os assentos sem estofos do nosso “caio” (marca do autocarro), não notamos um único salto. Havia de facto, e sem exagerar, mais saltos no avião do que na estrada, com um tapete de asfalto genuinamente negro e com uma camada de aparentemente quinze centímetros. É uma das poucas situações em que “negro” indica algo de “positivo”. Negro e limpo, o lençol de asfalto dava a sensação de que estaríamos a sonhar ou então recuando até a era colonial, mas não. Era apenas uma obra feita por homens, nos dias de hoje. Alguém entre os excursionistas apontou o facto de chover pouco no Namibe como sendo razão da excelente condição das estradas.

O retracto mental que eu tinha, dum Namibe cidadezinha sem movimento apesar da vantagem do mar, fruto de quatro horas de observação, se desfazia. Na verdade, o que voltei a ver foi uma cidade vasta e limpa, com muitas ruas e edifícios, não sendo também ínfimo o número de carros. Mas como a natureza é mãe do contraste, há uma divergência entre a imagem radiante do Edifício dos Caminhos-de-ferro de Moçâmedes e o estado das carruagens, cuja cor se assemelha às vestes dum menino de rua lavador de carros. No Namibe, algumas partes se parecem mais com a restinga do Lobito e certas esquinas de Benguela, já outras lembram Luanda. Três semelhanças numa só cidade, Namibe; onde na mesma rua em que os mercados e lojas luxuosas disputam a atenção dos interessados, também coabita um muro de adobes idoso e bem vistoso. Era o Namibe, cidade mística, afinal impossível de conhecer em quatro horas. Ao todo, vi nas ruas apenas 4 jovens zungueiros (vendedores ambulantes) e um maluco. Por que será?

Passando pelo hospital Central do Namibe e suas dependências é visível o investimento do Governo no sector social, cenário que condiz com as estruturas do Instituto Médio Normal de Educação (IMNE) e do pólo Universitário. Este último em estreia, vai leccionar cursos do sector marinho (biologia marinha, electricidade e gestão) albergando 400 estudantes, entre os quais provenientes de Luanda e de outras províncias. O desafio do próximo ano é arrancar com as especialidades do Instituto Superior de Ciências de Educação (ISCED): história, geografia, psico-pedagogia, para só citar alguns. As novas instalações do IMNE têm 12 salas de aulas, uma construção que levou cento e oitenta dias, no ano passado, e à cargo da empreiteira Cardis, sob gestão da Gespconsult Lda. Infelizmente, à semelhança de resto do país, no Namibe o IMNE funcionava em instalações da igreja católica, com gastos consideráveis no arrendamento mensal, segundo o guia. A alguns metros a leste, na estrada que dá ao aeroporto, a mesma via que liga o Namibe aos municípios do Tombwa e Virei, fica o lar dos estudantes que, cansado de bronzear-se ao sol exige alguma intervenção. Mesmo não tendo observado o interior, pelo menos a pintura já não tem brilho, enquanto que o capim invadiu o pátio, um favor da natureza que se encarregou daquilo que os homens não fazem, a jardinagem, talvez por falta de iniciativa, ou talvez por comodismo. De resto, a cidade é conhecida pela escassez das chuvas, tanto assim que já um mês se passou desde as últimas chuvas. “Aqui dificilmente chove”, reforçou o guia principal, Vidigal Lopes.

A paragem a seguir foi no Aeroporto Yuri Gagarine, que dista aproximadamente 8 km da cidade do Namibe. Uma rotunda oval logo à chegada chama à atenção não apenas pela tentativa de vegetação, mas pelos símbolos político-militares que constituem o memorial em três cenários: Numa placa de mármore sobre uma estrela, lia-se em letras maiúsculas: “A la memoria del piloto cubano 1º TT. Pedro Pablo Reinoso Bernal, que cayera en el cumplimiento de su deber internacionalista en Namibe el 13.2.88”; o 2º rectângulo oblíquo mostra: “A la memoria del suboficial Luis Moinelo Dias quien cayera en el cumplimiento de su deber internacionalista en 17-5-89”; uma asa de mig, aparentemente tombado, apresenta no centro um círculo colorido com a bandeira do MPLA, ao lado de uma metralhadora neutralizada. Chocante é a monotonia do aeroporto às 2ªs, 4ªs e 6ªs feiras, quer se trate dos voos da Taag, quer de operadoras privadas. “Aqui o movimento de negócios é parado” – lamentou o motorista do autocarro – “Muitas vezes a mercadoria que vem no porto volta ao Lubango” – continuou. Falando em negócios, alguém ainda terá de me explicar a razão do “exagerado” número de farmácias, plantadas de palmo em palmo, mormente na periferia. Impressionante! Certamente, um estrangeiro desinformado talvez se julgasse estar no Uige, a terra campeã das mortes, por doença causada pelo vírus marburg. No aeroporto, dois jornalistas da TV Bahia do Brasil, Júlio César e Wanda Chase, voltavam ao Brasil depois das filmagens sobre a cultura dos povos da Huila e Namibe. Conversamos brevemente sobre as vantagens e jogos de cintura no jornalismo e ofertaram-me um CD de Daniela Mercury. Gostei. (Continua na próxima edição)

Gociante Patissa, sábado, 7 de Maio de 2005
Activista de Educação Cívica e Direitos Humanos e Radialista Amador
Bairro da Santa-Cruz, Lobito, Caixa postal 208-Catumbela